Mães. Ah, as mães... são todas iguais?
Durante muito tempo, acreditei que sim. Afinal, é isso o que aprendemos ao longo da vida: que mães são absolutamente amorosas, que fazem tudo pelos filhos, que estão sempre dispostas a se sacrificar e que nos recebem aos domingos com acolhimento, carinho e o mais saboroso dos almoços. Mães perfeitas. Mães idealizadas.
Mas então a vida acontece.
Nós crescemos e, principalmente quando nos tornamos adultos, começamos a enxergar algo desconcertante: antes de serem mães, elas são seres humanos.
Talvez essa seja uma das descobertas mais difíceis da vida.
Porque aquela mulher que ocupava um lugar quase sagrado passa a revelar suas fragilidades, suas limitações e suas contradições. Corre sangue em suas veias. Ela falha. Ela deseja. Ela se cansa. Ela não corresponde, necessariamente, ao ideal que construímos.
E então surge uma pergunta importante: esse ideal nasceu em nós ou foi aprendido?
Será que esperamos tanto das mães porque a sociedade nos ensinou que elas deveriam amar incondicionalmente, morrer pelos filhos e viver para os filhos?
Mas será que todas as mães conseguem fazer isso?
Talvez não. Porque mães não são heroínas de contos de fadas nem Mulheres-Maravilhas. São mulheres reais, carregando suas próprias histórias, dores, desejos e limitações.
E essa não é uma questão de julgamento. Pelo contrário. É uma tentativa de compreensão.
Qual é a história daquela mulher? Quais foram suas dores, suas faltas, seus recursos e suas possibilidades? O que ela recebeu da vida para poder oferecer aos filhos? Será que conseguiu ser a mãe que precisava ser ou apenas a mãe que pôde ser?
Mesmo assim, julgamos. E muitas vezes julgamos de forma cruel.
Há mães, por exemplo, que não conseguem reconhecer a filha como ela é. Gostariam que ela fosse diferente. Mais parecida consigo mesmas. Mais vaidosa. Mais extrovertida. Mais isso ou menos aquilo.
E, por muito tempo, a filha sofre.
Acredita que precisa ser outra pessoa para merecer amor ou aprovação. Passa a vida acreditando que deve usar aquele tipo de maquiagem, aquela cor de esmalte, fazer determinadas escolhas. Pequenos detalhes que, silenciosamente, constroem um profundo sentimento de inadequação.
Até que, em algum momento, ela começa a perceber:
Eu sou assim. Sou diferente da minha mãe. E tudo bem.
Cada qual com a sua individualidade.
A mãe gostaria que a filha fosse mais parecida com ela. A filha gostaria que a mãe fosse diferente do que é. Mas nenhuma das duas será. E tentar caber no desejo do outro costuma ser um caminho para o sofrimento.
Mas isso dói.
Dói perceber que nossa mãe não é igual às mães que imaginamos existir. Dói perceber que ela talvez não demonstre preocupação da maneira que gostaríamos. Que talvez não tenha vontade de conviver conosco como sonhamos. Que talvez não ocupe o lugar que idealizamos para ela.
Talvez ela simplesmente tenha sido a mãe que soube ser.
Entretanto, aceitar isso é profundamente difícil.
Porque queremos que o outro seja aquilo de que acreditamos precisar.
Mas os outros não são personagens da nossa história. São seres humanos com suas próprias histórias.
E, às vezes, a maturidade chega quando entendemos que nossa mãe tem o direito de ser quem é — inclusive quando isso nos machuca e nos faz derramar lágrimas.
Algo muda quando deixamos de lutar contra a realidade.
A dor não desaparece. Mas a exigência diminui.
Nem todas as mães são iguais. Cada uma carrega suas próprias peculiaridades, sua própria história, seus próprios limites.
Talvez o inapropriado seja colocá-las em um pedestal tão alto que nenhum ser humano seria capaz de ocupar.
Minha mãe não é a mãe que imaginei. Não é aquela para quem vou aos domingos em busca de acolhimento, intimidade e do almoço compartilhado. Mas foi a mulher que me trouxe ao mundo. E, à sua maneira, com aquilo que tinha disponível dentro de si, ocupou o lugar que conseguiu ocupar.
Quando começo a compreender isso, mesmo que apenas por instantes, algo se desloca.
Posso olhar para ela não como a mãe que eu gostaria de ter tido, mas como a mãe que recebi.
E talvez exista uma sabedoria nisso.
Porque, se ela fosse diferente, talvez não fosse a experiência que eu precisava viver. Talvez não me ensinasse as lições que vieram justamente dessa falta, dessa diferença, desse desencontro.
Talvez uma das tarefas mais difíceis da vida adulta seja viver o luto da mãe idealizada.
Não o luto pela perda da mãe real, mas pela perda daquela mãe que imaginávamos ter ou que acreditávamos precisar. A mãe sempre disponível. Sempre acolhedora. Sempre capaz de responder às nossas expectativas.
E, aos poucos, vamos deixando de nos relacionar com a mãe que imaginamos e começamos a encontrar a mãe que realmente existe.
Talvez crescer seja isso: deixar partir a mãe idealizada para, enfim, encontrar a mãe real.
Nem todas as mães são iguais.
Nem todos os filhos são iguais.
Nem todas as histórias são iguais.
E talvez seja justamente aí que more a beleza — e também a dificuldade — dos vínculos humanos: aceitar o outro não como gostaríamos que fosse, mas como ele é.
Afinal, cada mãe é uma mãe.
E cada filho precisa encontrar um caminho possível para lidar com a mãe que recebeu.
Sei que minha mãe jamais lerá este texto, mas é para ela que escrevo.
Não como alguém que encontrou todas as respostas, mas como uma filha que, aos poucos, aprende a trocar a idealização pela compreensão.
Porque cada um de nós é, em alguma medida, aquilo que soube, pôde e conseguiu ser.
Beijos de Luz!
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Sandra
Psicanalista