Estar na Pele da Bruna
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A dúvida que não era minha
Numa noite, tive uma das minhas crises de ansiedade típicas do TEPT.
Quando isso acontecia, eu não dormia mais.
O alerta ligava. O corpo entrava em vigília.
E a pergunta vinha sempre da mesma forma:
Como essa pessoa passou a me odiar da noite pro dia?
A imagem voltava com nitidez.
O rosto dele enquanto me enforcava.
O ódio.
Depois, as palavras. Vagabunda. Ingrata. Doente. Lixo humano. Parasita. Ser sem luz. Louca.
Por quê?
Por que tanto ódio?
Será que eu tinha causado isso?
Será que exagerei quando questionei, quando reclamei?
Será que eu era mesmo abusiva?
Essas perguntas não me deixavam dormir.
Em algum momento, decidi tomar uma cerveja para tentar relaxar. Não para me embriagar. Não estava bêbada. Mas uma cerveja é suficiente para dar coragem. Ou, talvez, para diminuir o medo.
E então fiz algo que hoje entendo como desespero por realidade.
Procurei todos os meus ex-namorados.
O primeiro, de mais de vinte anos atrás.
Um ex que me traiu e que eu considero um idiota.
Outros relacionamentos curtos, longos, importantes, irrelevantes.
Para todos, expliquei de forma sintética o que tinha acontecido.
E fiz sempre a mesma pergunta:
Você acha que eu era abusiva?
Por sorte, todos responderam algo muito parecido.
“Sinto muito pelo que você passou.”
“Você é uma pessoa muito boa.”
“Você não merecia isso.”
Não foi um alívio imediato.
Mas foi o início de algo que a violência tinha tentado arrancar de mim:
a confiança na minha própria percepção.
***
Bruna Ferreira
Advogada de formação, hoje gerente de projetos em tecnologia (onde os prazos são curtos e os cafés longos). Mãe do Luca — especialista em noites mal dormidas e amor incondicional. Sobrevivente de violência doméstica, transformando dor em força e ajudando outras mulheres a fazerem o mesmo. Sempre em busca de evolução (e umas horinhas de sono também).
Na nova página do Estar na Pele, Bruna Ferreira parte de acontecimentos recentes para refletir sobre o papel das instituições, da Justiça e da cultura na prevenção da violência contra as mulheres.