Janeiro Branco: a depressão, a escuta e o diálogo que sustenta a vida
A depressão não é apenas tristeza. Ela é, muitas vezes, um grito de sobrevivência. Um pedido silencioso para continuar existindo quando tudo dentro parece desabar. Conviver diariamente com a depressão é como manter o corpo imerso em um mar aparentemente tranquilo, enquanto, por dentro, as correntes puxam para o fundo. A dor não grita, não se anuncia, não faz alarde. Ela se instala como um oco, um vazio que corrói por dentro sem que, do lado de fora, quase nada seja percebido.
É o guarda-roupa bagunçado dentro de uma casa organizada. É o sorriso que funciona, o trabalho que segue, os compromissos cumpridos. Ao redor, pessoas, rotinas, expectativas. Quem diria? Quem poderia imaginar que ali, naquela leveza aparente de ser, habitava um caos? Uma dor profunda, devastadora, persistente. A depressão tem essa crueldade: ela não precisa de cena, ela se alimenta do silêncio.
Foi nessa escuta, e não apenas nessa análise que percebi o quanto a depressão aprisiona. Cada vez que escuto alguém falar sobre sua dor, eu me coloco nesse lugar. Não apenas porque estudei, não apenas porque sustento um lugar clínico, mas porque sinto na pele o que é acordar todos os dias para uma luta invisível. O que é se esforçar para ser feliz e, ainda assim, sentir que a batalha nunca é totalmente vencida. Porque mesmo nos momentos de alegria, ela está ali. Encoberta. À espreita. Com os olhos atentos, esperando o momento em que será, mais uma vez, abraçada.
Na clínica, o diálogo com a paciente não é feito apenas de palavras. Ele se constrói nos silêncios, nos olhares, nas pausas longas, nos suspiros que dizem mais do que frases inteiras. “Eu estou cansada”, ela me disse. E não era um cansaço do corpo, mas da existência. Um cansaço de precisar ser forte o tempo todo, de precisar explicar o que nem ela mesma conseguia nomear. A depressão, muitas vezes, rouba a linguagem. Ela deixa o sujeito sem palavras para falar de si.
Janeiro chega como um marco simbólico. Um convite social à esperança, aos recomeços, às promessas. Mas para quem convive com a depressão, atravessar janeiro pode ser um desafio imenso. É quando o mundo parece exigir alegria, enquanto o corpo mal consegue sustentar o básico. É por isso que o Janeiro Branco é tão necessário: para lembrar que saúde mental não é sobre positividade forçada, mas sobre cuidado, escuta e acolhimento.
“Janeiro de 2026”, ela disse em uma sessão, com a voz embargada. “Ufa. Pensei que não chegaria até aqui.” E, naquele instante, não havia vitória nem derrota. Havia sobrevivência. Estar ali significava ter atravessado exatos 369 dias. E isso, por si só, merecia ser comemorado, vibrado, acolhido com carinho. Sobreviver não é pouco. Sobreviver é um ato radical de amor à vida quando tudo parece empurrar para o contrário.
Ela contou que não foi fácil caminhar. Que cada degrau parecia alto demais, cada barreira pesada demais. O medo esteve presente a cada segundo — e quase a parou. Ela o sentiu com força. Mas, ainda assim, seguiu. Olhou para trás muitos dias. Em outros, não conseguiu olhar para frente. Visualizar o que ainda estava por vir parecia impossível. Não havia imagem de futuro, não havia promessa de amanhã. E, ainda assim, o amanhã existiu. Um dia de cada vez. Cada dia sendo, novamente, um novo amanhã.
Este texto fala de luto. Fala de morte, de dor, de tristeza. Mas fala, sobretudo, de vida. Da vida que fica. De quem permanece. Eu, você. Fala desse empurrão silencioso que a vida dá, não permitindo que se pare completamente, mesmo quando tudo em nós pede descanso. A depressão cansa, mas a vida insiste.
Se eu pudesse dizer algo a você que atravessou esse ano, eu diria: estou feliz por você ter sobrevivido. Vi você se espremer até a última gota. Vi você dar tudo de si quando parecia não haver mais nada. E isso foi lindo. Foi humano. Foi quase uma força divina. Não a força que ignora a dor, mas a que caminha com ela.
Que cada dia em que você acordar, possa se olhar no espelho com um pouco mais de gentileza. Que consiga reconhecer o quanto tem se esforçado para organizar essa dor aí dentro. Nem sempre ela estará arrumada. Às vezes, continuará bagunçada. Mas você segue. E seguir, muitas vezes, já é o suficiente.
Janeiro Branco não é sobre apagar a dor. É sobre permitir que ela seja escutada. Porque quando a dor encontra escuta, ela já não precisa gritar para sobreviver.
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Louise Barbosa
Gestora de recursos humanos pelo Centro Universitário Jorge Amado e Psicanalista formada pelo Instituto Oráculo de Psicanálise, aborda temas como ansiedade, depressão, autoconhecimento e maternidade. Atua em consultório particular na forma presencial e online. Também é uma utilizadora da clínica peripatética em casos específicos.
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