Letramento Socioemocional e Expressão Artística como Caminhos para o Bem-Estar Mental
O início do ano, marcado pela campanha Janeiro Branco, convida a sociedade a revisitar conceitos fundamentais sobre saúde mental e bem-estar. Em um momento em que o cuidado emocional se torna pauta pública, compreender o papel do letramento socioemocional e das práticas artísticas como ferramentas de desenvolvimento subjetivo torna-se ainda mais urgente. Esses dois campos dialogam diretamente com o que diversas abordagens psicológicas já sustentam: a expressão simbólica é parte essencial do processo humano de reconhecimento, elaboração e ressignificação das emoções.
Os estudos contemporâneos sobre competências socioemocionais foram fortemente influenciados pela psicologia humanista, pela teoria das múltiplas inteligências e, mais recentemente, pelos achados das neurociências.
Daniel Goleman (1995) popularizou o conceito de inteligência emocional ao demonstrar que reconhecer e manejar as próprias emoções e as emoções dos outros é tão importante quanto habilidades cognitivas tradicionais.
Howard Gardner (1983), com a Teoria das Inteligências Múltiplas, reforçou a existência de competências interpessoais e intrapessoais como formas legítimas e complexas de inteligência.
Pesquisas em neurociência afetiva, como as de Antonio Damásio (1996) e Jaak Panksepp (1998), evidenciam que emoções e processos cognitivos são interdependentes: sentir, pensar e agir compõem um sistema integrado de funcionamento.
Essas bases teóricas sustentam iniciativas de educação socioemocional em diferentes contextos, inclusive programas voltados ao público adulto e idoso. O aprendizado emocional não se encerra na juventude; ao contrário, pode ganhar profundidade à medida que o indivíduo revisita experiências, reorganiza narrativas e ressignifica vivências acumuladas ao longo da vida.
A expressão artística como tecnologia de elaboração emocional
A arte, em suas múltiplas linguagens, é reconhecida como um território privilegiado para a expressão de conteúdos internos. Diversas abordagens psicológicas sustentam essa compreensão:
Psicanálise: Freud já descrevia a sublimação como um dos caminhos de transformação de energias psíquicas em produções culturalmente aceitas. Posteriormente, Winnicott aprofundou a ideia do “espaço potencial”, lugar transicional onde o brincar e a criação funcionam como campo para a emergência de simbolização e integração emocional.
Arteterapia: Como campo clínico e educacional, a arteterapia fundamenta-se na noção de que processos criativos mobilizam camadas profundas do psiquismo, permitindo o acesso a conteúdos pré-verbais e sensoriais. Autores como Edith Kramer e Margaret Naumburg defendem que as produções artísticas atuam como mediadoras de conflitos internos, facilitando insight e autorregulação.
Neurociências: Pesquisas de Catherine Malchiodi (2015) e colegas demonstram que atividades criativas ativam o sistema límbico e promovem integração entre áreas cerebrais responsáveis por emoção, memória e linguagem. Isso explica por que a arte frequentemente possibilita acessar conteúdos que não emergem espontaneamente na conversação racional.
A arte permite acessar conteúdos psíquicos que não emergem facilmente pela via verbal. Pesquisas reforçam esse papel:
Estudos de neuroimagem mostram que atividades artísticas ativam redes cerebrais relacionadas à recompensa, motivação, regulação emocional e memória autobiográfica.
A prática do desenho e da pintura aumenta a conectividade neural e facilita a expressão afetiva, especialmente em pessoas com histórico de repressão emocional.
A música, segundo Stefan Koelsch, modula respostas fisiológicas relacionadas à ansiedade, ampliando a sensação de segurança afetiva.
A escrita expressiva, conforme as pesquisas de James Pennebaker, favorece a reorganização emocional e a criação de sentido diante de eventos desafiadores.
Essas experiências convergem para um ponto central: a arte funciona como mediadora entre emoção e consciência. Ao externalizar imagens internas, o indivíduo cria distância suficiente para observar, compreender e ressignificar dores, medos, desejos e memórias.
Quando processos artísticos são associados a práticas de letramento socioemocional, observa-se um impacto significativo na forma como indivíduos reconhecem, nomeiam e compartilham seus afetos. O fazer artístico:
estimula a consciência sensório-corporal, componente fundamental da autopercepção emocional;
amplia o vocabulário emocional ao associar cores, formas, metáforas e narrativas às sensações internas;
facilita a externalização segura de conflitos intrapsíquicos;
fortalece autoestima e agência subjetiva ao validar a singularidade criativa;
promove pertencimento e conexão quando realizado em grupo, favorecendo a co-regulação emocional.
Esse conjunto de elementos favorece o que Carl Rogers descreveu como tendência atualizante: a capacidade humana de se desenvolver, se reorganizar e buscar equilíbrio quando encontra condições de aceitação, autenticidade e expressão.
Adultos e pessoas 50+: por que esse trabalho é tão essencial?
Para o público 50+, a arte possui ainda outro potencial: o de apoiar transições de vida. Mudanças na identidade profissional, reconfiguração de papéis familiares, lutos, aposentadoria e reavaliação de sentido podem mobilizar emoções complexas. Nesse cenário, práticas artísticas funcionam como recursos de reorganização psíquica.
Programas de educação continuada, grupos de experimentação sensível e oficinas de expressão criativa são frequentemente citados na literatura como meios eficazes para:
fortalecer autoestima;
promover interação social significativa;
reduzir sintomas de ansiedade e depressão;
ampliar repertório emocional e autoconhecimento;
estimular a sensação de vitalidade e pertencimento.
Janeiro Branco como marco de reflexão e compromisso
Embora simbolicamente localizado no início do ano, o cuidado emocional é um processo contínuo. A campanha Janeiro Branco funciona como um marco para lembrar que saúde mental não é apenas ausência de sofrimento; é a construção diária de condições internas e externas para viver com sentido, presença e equilíbrio.
Incorporar práticas artísticas ao cotidiano — mesmo de forma simples, espontânea e não técnica — pode ser uma porta de entrada poderosa para esse caminho. Escrever, cantar, dançar, desenhar, fotografar, modelar, improvisar movimentos ou montar colagens não é apenas criar; é permitir-se sentir e compreender.
Cuidar da saúde mental é um gesto de coragem e maturidade. A articulação entre letramento socioemocional e expressão artística oferece caminhos concretos para acessar emoções profundas, ressignificar experiências e construir uma vida mais integrada e consciente. Ao iniciarmos mais um ano, o Janeiro Branco nos convida a colocar a sensibilidade no centro da vida e reconhecer a arte como uma poderosa aliada na construção de bem-estar.
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Carol Rahal, diretora Educacional do Instituto Bem do Estar.
Artista visual, educadora e diretora educacional, desenvolve projetos que unem arte, educação e desenvolvimento socioemocional. Formada em "Comunicação das Artes do Corpo", "Fotografia" e "Artes Cênicas", e pós-graduada em "Arte e Educação". Entre 2007 e 2008, a partir de uma bolsa de estudos de um programa do Consulado da Indonésia, realizou um curso de extensão internacional em "Dança, Cultura e Idioma tradicionais", em Bali, esta vivência ampliou sua visão intercultural e inspirou sua abordagem sobre arte, educação e expressividade. É idealizadora e realizadora de viagens pedagógicas - culturais voltadas a alunos do Ensino Médio, experiências imersivas que unem arte, literatura e vivência sensível. Atualmente, atua como Diretora Educacional do "Instituto Bem do Estar", contribuindo com projetos que fortalecem a educação como um caminho de autoconhecimento e transformação social.
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