Quando a boca sussurra “sim” e a alma grita “não”
“Sou tão bonzinho… tão boazinha…
e, ainda assim, só encontro ingratidão.”
— Minha amiga pediu emprestado meu vestido favorito…, mas, na verdade, eu ia usá-lo no dia seguinte. Eu não podia emprestar.
— E o que você fez?
— Emprestei. Fiquei com dó.
— E você?
— Eu tive que ir ao evento com um vestido que eu não queria usar. Fui assim mesmo… eu sempre vou. Tadinha da minha amiga… ela só queria emprestado uma vez. Quer dizer… já foi a terceira.
(silêncio)
— Isso acontece com frequência?
— Muito. Teve um dia em que um amigo me ligou às dez da noite. Eu já estava de pijama. Ele pediu, pelo amor de Deus, para eu ir à casa dele porque estava muito mal, tinha brigado com o namorado.
— E você foi?
— Fui. No dia seguinte acordei exausta. Tinha uma prova cedo, nem fui tão bem. Mas, pelo menos, ajudei ele, né?
— Percebo um “mas”.
— Sempre tem. Outro final de semana eu ia finalmente me sentar para ler um livro. Aí minha prima pediu para ir ao parque porque não queria andar sozinha. Eu pensei: imagina, não vou deixar minha prima sozinha. Fui. Não li o livro.
— E o que tudo isso te faz sentir?
— Angústia. Muita. Eu ajudo tanto… e, no fim, parece que não recebo nada em troca. É como se eu fizesse tudo para os outros e nada para mim. As pessoas são ingratas mesmo. Já estou acostumada com tanta ingratidão.
(silêncio)
— Eu me sinto vazia. Como se eu só me doasse, doasse, doasse… e eu nem existisse mais. Até dinheiro eu sempre empresto — e nem preciso dizer que não recebo de volta. De vez em quando, tenho a sensação de ser uma agência bancária. Sinto que as pessoas me procuram só quando precisam de alguma coisa e sabem que eu vou dar, nem que tenha que renunciar a mim mesma.
— Às vezes, nesse movimento constante de cuidar do outro, a gente se perde de si.
— É exatamente isso. Nem sei por onde anda a minha alma. Eu me esqueci de mim.
— Você diz: “eu me esqueci de mim”. No avião, antes da decolagem, os comissários sempre dizem, por questões de segurança: se as máscaras caírem, coloque a sua primeiro e depois ajude quem estiver ao lado — mesmo que seja uma criança ou um idoso.
— Mas isso não é egoísmo? Eu sempre aprendi que o outro vem primeiro.
— E se você não conseguir respirar?
— …
— Como vai ajudar alguém sem ar?
— Então… talvez eu tenha aprendido que, para ser uma boa pessoa, eu preciso sempre me colocar por último.
— O que é ser uma boa pessoa para você?
— É isso… é se deixar por último. Dar a máscara para o outro, mesmo que eu não respire e morra.
(choro profundo)
— Não consigo dizer não… não sei dizer não.
— O “sim” é garantia de vínculo?
— Não. As pessoas acabam indo embora mesmo depois de eu me doar completamente.
— E o que imagina que pode acontecer se você disser um “não”?
— Eu não sei direito…
(pausa)
— A pessoa não vai gostar. Vai ficar chateada comigo. Vai embora, como falei.
— E o que pode acontecer se a pessoa ficar chateada com você?
— Aí…
(pausa)
— A pessoa não vai gostar mais de mim.
(silêncio)
— Vai achar que eu sou egoísta. Ingrata. Porque eu disse não, e meus amigos não serão mais meus amigos.
— Entendo.
(pausa)
— E quando você diz sim, com a alma dizendo não… como é que o seu corpo responde?
— Cansaço.
(pausa)
— Muito cansaço.
(silêncio)
— Exaustão. Ressentimento. Angústia. Dor no peito. Meu coração dói.
— Então, quando você não serve para o outro, você deixa de existir?
(silêncio)
— Acho que só existo se eu servir o outro… é como se eu fosse uma escrava da vontade do outro, atrás de migalhinhas de amor… e isso nem funciona, porque só recebo ingratidão de volta.
(choro)
— Na verdade…
(pausa)
— Eu acho que dizer não mostra que eu não sou uma boa pessoa.
(silêncio)
— Se você disser não, você deixa de ser uma boa pessoa.
— É.
— E o que acontece com você quando tenta ser sempre uma boa pessoa como diz, no sentido de fazer tudo exatamente como o outro deseja?
(silêncio longo)
— Eu desapareço.
(pausa)
— Eu fico por último… sem respirar… sem a máscara do avião.
(silêncio)
— Eu não sei mais o que eu quero.
— …
— Talvez…
(pausa)
— O preço de ser sempre boa…
(silêncio)
— seja não existir para si mesma.
(silêncio)
- Sem perceber, passei a viver sem ar, oferecendo a máscara antes mesmo de sentir a falta de oxigênio.
— Sou somente o que os outros me pedem… eu não existo mais… quero respirar... preciso da máscara primeiramente em mim!
E você, minha querida e meu querido leitor,
em quais momentos percebe que o “sim” sai da boca,
enquanto a alma, em silêncio, pede outra coisa?
Beijos de Luz…
***
Sandra Marcondes
Psicanalista, advogada e com a esperança sempre carregada no coração!
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