Estar na Pele da Bruna
Página 7
Quando a violência não deixa marcas visíveis (parte 2)
Antes da validação, a insistência
Existe um trecho da violência que quase nunca aparece nos relatos: o que acontece depois que a mulher decide falar. Como se o ato de denunciar fosse simples, imediato, quase automático. Não é.
Denunciar exige sair de um estado de inércia profunda. Um lugar onde o corpo está cansado demais, a mente confusa demais e a culpa ainda ocupa muito espaço. Antes de existir coragem, existe medo. Antes de existir clareza, existe dúvida. E, principalmente, existe exaustão.
Relatar tudo o que vivi foi difícil. Não apenas pelo conteúdo, mas porque contar exige organizar o caos. Exige revisitar dores que ainda estão abertas. Exige insistir quando o caminho parece empurrar você de volta para o silêncio.
Na Delegacia da Mulher, a primeira tentativa foi enquadrar tudo como injúria. Um xingamento isolado. Um recorte mínimo de algo que era muito maior. Eu ouvi aquilo e soube, no corpo, que não era suficiente. Não era sobre uma ofensa. Era sobre um contexto inteiro de violência psicológica continuada.
Fui eu quem trouxe a Lei Maria da Penha para a conversa. Fui eu quem explicou que a violência não era pontual, mas repetida, estruturada, cumulativa. A escrivã não sabia. Precisou perguntar à delegada. E, ainda assim, o boletim foi registrado apenas com a última ofensa, apesar de eu ter levado todos os prints, todas as mensagens, toda a prova de um padrão que já durava anos.
Saí dali com a sensação estranha de ter falado muito e, ainda assim, não ter sido ouvida por completo.
Não desisti. Voltei para casa e fiz o que ninguém tinha feito por mim: organizei tudo. Construi o relato. Escrevi a linha do tempo. Dei contexto. Mostrei a repetição. Mostrei a escalada. Mostrei o impacto. Pedi, formalmente, que aquilo fosse juntado. Insisti.
E só então o que eu dizia começou a ganhar forma institucional.
Em muitos momentos, pensei: e se eu não tivesse feito isso?
E se eu não tivesse conhecimento? E se estivesse mais fragilizada? E se tivesse acreditado que aquilo “não era nada”? E se fosse outra mulher? Sem apoio, sem energia, sem linguagem para traduzir a própria dor?
A verdade é que o sistema ainda exige demais de quem já foi violentada. Exige clareza de quem está confusa. Exige firmeza de quem está exausta. Exige didática de quem mal consegue respirar.
Nada disso deveria ser assim.
Esse texto não é sobre heroísmo. É sobre sobrevivência. Sobre ter insistido mesmo quando tudo parecia empurrar para o apagamento. Sobre entender, na prática, que muitas mulheres não desistem de denunciar porque não querem, mas porque não conseguem atravessar sozinhas esse caminho.
Antes da validação, existe a insistência.
E ela também cansa.
E ela também adoece.
E ela também precisa ser falada.
***
Bruna Ferreira
Advogada de formação, hoje gerente de projetos em tecnologia (onde os prazos são curtos e os cafés longos). Mãe do Luca — especialista em noites mal dormidas e amor incondicional. Sobrevivente de violência doméstica, transformando dor em força e ajudando outras mulheres a fazerem o mesmo. Sempre em busca de evolução (e umas horinhas de sono também).
Neste texto, Bruna compartilha o que quase nunca aparece nos relatos: a insistência que antecede a validação. O cansaço de explicar, organizar provas, repetir a própria dor — em um sistema que ainda exige demais de quem já foi violentada.