Como o Letramento Socioemocional e as Linguagens Artísticas ajudam os jovens a construir sentido sobre Suas Próprias Histórias
O Janeiro Branco, campanha nacional dedicada à conscientização sobre saúde mental, reacende um debate fundamental sobre o bem-estar emocional de adolescentes. Em um momento marcado por pressões escolares, instabilidade social e excesso de estímulos digitais, especialistas apontam que o desenvolvimento de habilidades socioemocionais é uma das estratégias mais eficazes para apoiar jovens na construção de identidade e na elaboração de suas experiências internas.
A adolescência, conforme apontam psicólogos do desenvolvimento, é uma fase de intensos questionamentos: quem sou eu? O que sinto? Qual é o meu lugar no mundo? A dificuldade de responder a essas perguntas muitas vezes se traduz em ansiedade, impulsividade, isolamento ou conflitos familiares. É nesse contexto que o letramento socioemocional — a capacidade de reconhecer, nomear, compreender e comunicar emoções — ganha força como política de cuidado e prevenção.
Pesquisas realizadas pelo CASEL (Collaborative for Academic, Social and Emotional Learning) mostram que adolescentes que desenvolvem competências socioemocionais apresentam menor incidência de ansiedade, maior senso de propósito e melhor desempenho escolar . Além disso, estudos de Lisa Feldman Barrett demonstram que a habilidade de “construir emoções”, ou seja, diferenciar e nomear estados internos, aumenta significativamente a resiliência emocional. Essa competência se relaciona diretamente à possibilidade de construir narrativas coerentes sobre a própria vida, processo essencial na formação da identidade.
A arte como porta de entrada para emoções complexas
Mas, para grande parte dos adolescentes, transformar sentimentos em palavras não é simples. É aqui que entram as linguagens artísticas.
Desenho, música, fotografia, dança e escrita criativa são, segundo pesquisadores de psicologia e arteterapia, caminhos para acessar emoções difíceis de verbalizar. A criação oferece ao jovem um espaço seguro onde pensamentos e afetos podem ganhar forma antes de se tornarem discursos.
Estudos na área das neurociências explicam esse fenômeno. Atividades expressivas ativam regiões cerebrais ligadas à memória, ao processamento emocional e à imaginação, facilitando a elaboração de experiências marcantes. Ao produzir uma imagem, compor uma letra ou montar uma cena teatral, o jovem organiza internamente aquilo que ainda não consegue explicar.
Para muitos, a arte funciona como tradução — transforma o indizível em algo possível de ser visto, tocado ou compartilhado.
Construir sentido para construir saúde
A construção de sentido sobre a própria história é um elemento central para o bem-estar emocional. A perspectiva de Jerome Bruner reforça esse movimento ao defender a aprendizagem por descoberta, na qual adolescentes constroem ativamente seu conhecimento ao explorar, experimentar e resolver problemas reais, em vez de apenas receber informações de forma passiva. Essa abordagem se articula profundamente com práticas artísticas e com o letramento socioemocional: ao criar, investigar e atribuir significado às próprias produções, o jovem se torna protagonista do processo de aprendizagem e, simultaneamente, da compreensão de sua história emocional. Nesse ambiente de descoberta guiada, a arte funciona como mediadora, permitindo que o adolescente transforme experiências internas em narrativa, gesto ou imagem, ampliando sua capacidade de interpretar o mundo e a si mesmo.
Oficinas artísticas, projetos escolares e programas sociais que integram arte e educação emocional têm mostrado resultados positivos. Jovens participantes relatam maior capacidade de nomear sentimentos, interpretar conflitos internos, dialogar com colegas e compreender suas próprias trajetórias.
Quando a escola e a família atuam juntas, o impacto é maior
Especialistas destacam que, embora a arte seja um recurso potente, ela não atua sozinha. O ambiente precisa favorecer escuta, acolhimento e ausência de julgamento. Professores, orientadores e familiares desempenham papel crucial ao legitimar a expressão emocional e incentivar a criatividade.
Iniciativas que combinam práticas artísticas com rodas de conversa, mediação de conflitos e acompanhamento pedagógico estruturado ampliam o impacto do letramento socioemocional, especialmente em comunidades vulneráveis.
Janeiro Branco como ponto de partida
O Janeiro Branco convida a sociedade a colocar a saúde mental no centro das discussões, mas o desafio vai além do calendário. Para adolescentes, o acesso a ferramentas de letramento emocional e expressão artística precisa estar presente ao longo de todo o ano, dentro e fora da escola.
Criar ambientes onde jovens possam elaborar o que sentem, construir sentido sobre suas histórias e experimentar narrativas possíveis é investir não apenas em bem-estar emocional, mas em futuro.
***
Carol Rahal, diretora Educacional do Instituto Bem do Estar.
Artista visual, educadora e diretora educacional, desenvolve projetos que unem arte, educação e desenvolvimento socioemocional. Formada em "Comunicação das Artes do Corpo", "Fotografia" e "Artes Cênicas", e pós-graduada em "Arte e Educação". Entre 2007 e 2008, a partir de uma bolsa de estudos de um programa do Consulado da Indonésia, realizou um curso de extensão internacional em "Dança, Cultura e Idioma tradicionais", em Bali, esta vivência ampliou sua visão intercultural e inspirou sua abordagem sobre arte, educação e expressividade. É idealizadora e realizadora de viagens pedagógicas - culturais voltadas a alunos do Ensino Médio, experiências imersivas que unem arte, literatura e vivência sensível. Atualmente, atua como Diretora Educacional do "Instituto Bem do Estar", contribuindo com projetos que fortalecem a educação como um caminho de autoconhecimento e transformação social.
Encontre apoio em saúde mental - Gratuito, acessível e perto da sua realidade
Procurar ajuda é um ato de coragem. Muitas vezes, o que precisamos é de um espaço de escuta, acolhimento e caminhos possíveis para seguir. Aqui, reunimos opções gratuitas ou de contribuição consciente para que ninguém deixe de cuidar da mente por falta de acesso.