O custo de pertencer: quando as relações influenciam quem podemos ser

Como os contextos em que vivemos participam da construção da nossa identidade e da nossa saúde mental

Quem eu sou? O que eu sinto? Por que ajo dessa maneira? São perguntas que parecem falar apenas sobre nós. Mas nossa saúde mental também é atravessada pelas relações que construímos, pelos grupos dos quais fazemos parte e pelos contextos em que vivemos.

Desde cedo, aprendemos códigos sobre o que é considerado adequado, desejável ou aceitável. Aprendemos o que merece aprovação, o que provoca estranhamento e aquilo que talvez seja melhor esconder. Algumas dessas aprendizagens são importantes para a convivência. Outras podem nos ensinar que, para pertencer, precisamos abrir mão de partes de nós.

Quando pertencer significa caber

O desejo de pertencer não é um problema, pois precisamos de vínculos, reconhecimento e relações nas quais possamos participar. A questão aparece quando pertencer passa a depender de caber em determinado modelo.

Pode ser aprender a não demonstrar tristeza, evitar discordar, esconder uma característica ou deixar de falar o que pensamos para não sermos julgados. Nem sempre existe uma ordem explícita. Às vezes, basta uma reação: uma risada, um comentário, um olhar de reprovação. Aos poucos, podemos aprender o que é seguro mostrar e o que é melhor esconder. E então surge uma pergunta importante: Estou escolhendo ser assim ou estou tentando corresponder ao que esperam de mim?

As relações também podem ampliar possibilidades

Se as relações podem produzir vergonha e conformidade, elas também podem criar espaço para outras formas de existir. Uma amizade em que podemos discordar sem perder o vínculo, uma família em que sentimentos podem ser expressos sem serem tratados como fraqueza ou uma escola ou ambiente de trabalho em que diferenças não precisam ser constantemente justificadas. Nesses espaços, não deixamos de sentir medo, vergonha ou insegurança. Mas encontramos condições para experimentar outras maneiras de estar em relação.

Saúde mental também acontece nas relações

É difícil falar sobre saúde mental sem considerar os contextos em que as pessoas vivem. As relações, os ambientes e os territórios participam da nossa experiência e podem ampliar ou limitar nossas possibilidades.

Essa perspectiva se aproxima da compreensão de Urie Bronfenbrenner, para quem o desenvolvimento humano acontece em interação com diferentes ambientes e sistemas que fazem parte da vida de cada pessoa. Na Saúde Coletiva, essa ampliação do olhar também aparece na discussão sobre território, relações sociais e processo saúde-doença. Por isso, promover saúde mental não é apenas oferecer ferramentas para que cada indivíduo consiga lidar melhor com suas emoções. Também envolve perguntar:

Que ambientes estamos construindo?
Quem consegue pertencer neles?
Quem precisa se adaptar mais para ser aceito?

O letramento socioemocional pode começar pela percepção de si: reconhecer uma emoção, compreender uma reação, encontrar palavras para uma experiência. Mas pode ir além. Podemos aprender também a perceber o impacto de nossas palavras e atitudes sobre outras pessoas, questionar padrões que naturalizamos e participar da construção de relações mais respeitosas. Porque nossas relações têm consequências.

Quando criamos espaços em que alguém pode falar, discordar, perguntar ou simplesmente existir sem medo de ser ridicularizado, estamos fazendo mais do que praticando uma habilidade socioemocional. Estamos ajudando a construir um contexto diferente.

Talvez essa seja uma das perguntas que o terceiro episódio da série nos deixa: Quanto custa ser quem você é?

E uma segunda pergunta pode acompanhar essa reflexão: Quanto custa para alguém ser quem é quando o ambiente ao redor não permite que essa pessoa exista sem se esconder?

Pensar sobre saúde mental também é pensar sobre o mundo que estamos construindo juntos.

Para continuar pensando

Em quais relações você sente que pode ser quem é? E o que existe nessas relações que permite isso?

Referências para aprofundar

BRONFENBRENNER, Urie. Bioecologia do desenvolvimento humano: tornando os seres humanos mais humanos. Porto Alegre: Artmed, 2011.

LIMA, Elizabeth Maria Freire de Araújo; YASUI, Silvio. Territórios e sentidos: espaço, cultura, subjetividade e cuidado na atenção psicossocial. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 38, n. 102, p. 593-606, 2014.

 

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