Quando o candidato vira rancor

Ah, o rancor...

“Imagina, eu perdoei aquela pessoa.”

Perdoou?

“Perdoei. Mas você sabe o que ela fez comigo? Ela defende aquele político... Ela não presta.”

Mas você não tem uma ligação com ela?

“Tenho.”

Qual é a ligação?

“Não é muito forte. Ela é minha irmã. Mas não presta. É uma louca, não serve para nada. Ela vota naquele político terrível.”

E as pessoas ficam assim: irmãos que deixam de se falar, famílias que deixam de conversar, amigos que se afastam, não porque necessariamente aconteceu alguma coisa entre eles, mas porque um defende um político e o outro defende outro.

Aí alguém pergunta:

“Mas ele sabe em quem ela votou?”

“Não. Ele nunca nem soube em quem ela votou. Ela não fala em quem vota para ninguém. Tem medo.”

“Então por que ele acredita que ela votou em alguém que ele não gosta?”

E, às vezes, a pessoa tenta conversar. Tenta argumentar sobre pautas que considera necessárias, sobre aquilo que acredita que precisa ser discutido.

Mas o outro não quer ouvir.

Não olha mais na cara.

Elimina.

É quando o candidato vira rancor...

Nem é mais sobre o que alguém fez.

É sobre aquilo que o outro imagina que essa pessoa fez.

E não é sobre o que uma pessoa sente.

É sobre aquilo que o outro imagina que essa pessoa sente.

Porque ninguém sabe exatamente o que vai na cabeça e no coração do outro.

A gente imagina.

E cria cenários dos mais horripilantes.

Só que podemos estar sendo injustos com relação a esses cenários, muitas vezes construídos dentro da nossa própria cabeça.

O outro cria uma imagem do outro e coloca nessa imagem aquilo que pensa, aquilo que acredita, aquilo que imagina que o outro pensa e sente — e não necessariamente aquilo que aquela pessoa realmente pensa e sente.

E, a partir dessa imagem, passa a julgar.

Passa a se afastar.

Passa a sentir rancor.

Em uma sociedade polarizada, dividida em lados cada vez mais radicalizados, em que cada ser humano passa a enxergar o outro não como alguém com quem pode discordar, mas como um adversário e até como um inimigo a ser combatido, o diálogo deixa de ser incentivado.

Mais do que isso: ele passa a ser condenado.

Se uma pessoa não pensa rigorosamente como a outra, ela não serve.

Parece que precisa ser eliminada da vida, do Planeta Terra.

E quem tenta se manter fora dessa guerra de torcidas, quem procura não vestir a camisa de nenhum dos dois extremos, pode acabar sendo alvo das duas pontas.

Passa a ser chamado de “isentão”, de omisso, medroso, de alguém que não se posiciona.

O resultado disso é o medo.

As pessoas passam a ter pavor de falar o que pensam.

Têm medo de expor uma nuance, medo de tentar ponderar, medo de procurar um caminho diferente e, ainda assim, acabar rotuladas e canceladas.

Temem a palavra porque o perigo real pode ser muito mais próximo do que uma disputa política:

é um irmão não olhar mais na sua cara,

uma família que se despedaça,

um amigo de uma vida inteira que se afasta.

Mas onde vamos parar?

Uma democracia não se sustenta apenas quando alguém deposita seu voto em uma urna.

Ela também depende da capacidade de convivermos com quem pensa diferente.

De reconhecer que o outro pode discordar de nós e, ainda assim, continuar tendo o direito de existir, de falar, de escolher e de participar da vida coletiva.

Precisamos aprender a diferenciar o adversário do inimigo.

O adversário pode pensar diferente. E ele pensa.

Pode defender outra ideia.

Pode fazer outra escolha.

E isso não significa que precise ser destruído.

Porque que bom que as pessoas pensam diferente.

A sociedade é isso.

Nós somos diferentes.

Pensamos diferente, fazemos escolhas diferentes, temos histórias diferentes.

E é justamente por isso que precisamos conversar em paz, mesmo discordando completamente.

Existe o mundo das ideias.

E que bom que existe.

Porque ninguém está cem por cento certo e ninguém está cem por cento errado o tempo todo.

Existem situações.

Existem contextos.

Existem diferentes pontos de vista.

A partir do momento em que alguém está aberto para escutar o outro, pode até continuar discordando, mas também pode ampliar, rever ou até transformar o próprio posicionamento.

Pode dizer:

“Eu não concordo com você.”

E tudo bem.

Pode escutar.

Pode argumentar.

Pode até mudar de ideia.

E, se não mudar, tudo bem também.

Porque discordar não significa destruir.

Discordar não significa odiar.

Discordar não significa eliminar.

Discordar não significa deixar de amar.

Que bom que as pessoas pensam de forma diferente.

É justamente aí que a sociedade acontece.

É aí que a gente precisa sentar-se, conversar, escutar, trocar ideias e, quem sabe, encontrar algum ponto em comum. Com boa vontade, a gente pode encontrar esse ponto — ou até vários pontos em comum.

Não para vencer o outro como nos campos de batalha.

Não para convencer o outro, mesmo porque ninguém é dono da verdade.

Mas para continuar reconhecendo o outro como alguém que, mesmo pensando diferente, continua sendo humano.

E continua podendo fazer parte da nossa vida.

Se alguém ganha uma eleição e outra pessoa não votou nessa pessoa, ela continua fazendo parte da representação do seu país.

E é preciso torcer para que dê certo.

Não por ela.

Pelo país.

Pelas pessoas.

Pelo bem comum.

Talvez uma das formas mais dolorosas de eliminar o outro seja justamente essa: deixar de reconhecê-lo como alguém que pode pensar diferente e, ainda assim, continuar sendo alguém que merece ser escutado, respeitado e amado.

E talvez a pergunta seja:

Será que é possível discordar sem deixar de amar?

Eu acredito que sim.

Porque o outro não precisa pensar como nós para continuar sendo nosso irmão, nosso amigo, nossa família.

Ele pode pensar diferente.

E nós podemos continuar conversando.

Não para vencer.

Não para convencer.

Mas para não perder o outro de quem a gente sente tanta saudade e que ama do fundo do coração...

***

Sandra

Psicanalista


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