“Relacionamento amoroso não existe. Tenho a mais absoluta certeza disso.”
Mas de onde vem essa certeza? Talvez você acredite nisso porque nunca tenha vivido uma relação amorosa como aquela que afirma não existir. E não estou falando de contos de fadas, relações perfeitas.
Aliás, a ideia de perfeição pode ser bastante cruel quando projetada sobre alguém que, como nós, é humano: tem sua própria história, suas dificuldades, seus limites e suas contradições.
Talvez seja justamente aí que comece a nossa reflexão.
Muitas vezes, olhamos a vida a partir das experiências que tivemos. Sem perceber, transformamos aquilo que vivemos em uma verdade absoluta sobre o mundo. É como se colocássemos aquelas viseiras colocadas nos cavalos, de modo a limitar nosso campo de visão. Olhamos apenas para o que conhecemos e concluímos que não existe nada além.
Mas e se existir?
Quando falamos de uma relação amorosa, falamos de duas pessoas reais. Duas histórias, dois mundos, duas maneiras de sentir, pensar e compreender a vida. Não são duas metades que se encontram para finalmente se tornarem completas. São duas pessoas inteiras, com suas singularidades, tentando construir algo juntas.
Construir uma relação não significa pensar igual em tudo, não ter conflitos ou esperar que o outro aja e reaja exatamente como gostaríamos. Isso seria negar a existência do outro como sujeito.
Não existe relacionamento sem conflitos. A questão não é eliminá-los, mas compreender como cada pessoa lida com as diferenças, como se posiciona diante delas e o que as duas conseguem construir a partir daí.
É preciso abandonar a expectativa de perfeição para começar a conhecer quem realmente está diante de nós.
E como pode ser interessante descobrir que o outro é diferente! Permitir que essa pessoa entre em nosso mundo, trazendo experiências, ideias e perspectivas que talvez nunca tivéssemos considerado. Não para nos tornarmos iguais, mas para ampliarmos nossa maneira de olhar a vida.
Aos poucos, descobrimos afinidades, reconhecemos diferenças e aprendemos a conviver com aquilo que não coincide. Nessa construção, podemos perceber que há muito mais em comum entre nós do que imaginávamos.
E, às vezes, a vida nos surpreende...
Mesmo quando já não acreditamos no amor, mesmo quando nossas experiências nos ensinaram a desconfiar, encontramos alguém com quem as coisas começam a acontecer de outra maneira — docemente assustadora.
Não há jogos. Não é preciso fingir desinteresse, calcular o tempo de uma resposta ou criar estratégias para despertar a atenção do outro. Há vontade de estar junto, disponibilidade, cuidado, reciprocidade e interesse genuíno.
Não é preciso inventar motivos para o encontro. Os dois querem estar ali.
E, pela primeira vez, talvez alguém comece a experimentar algo que durante muito tempo pareceu impossível: poder contar com outra pessoa sem precisar lutar continuamente para conquistar seu lugar.
Mas há uma questão delicada nesse processo.
Quando passamos grande parte da vida experimentando angústia, isolamento ou insegurança nos relacionamentos, podemos demorar a reconhecer a tranquilidade de um vínculo que se constrói de outra maneira. O presente começa a oferecer algo novo, mas a nossa história ainda pode nos fazer esperar que algo dê errado.
Mesmo quando está tudo bem, surge a pergunta: será que ele ou ela vai embora? Será que isso vai acabar? Será que posso confiar?
Não necessariamente porque o outro esteja dando motivos para desconfiar, mas porque ainda estamos aprendendo a viver uma experiência nova, que talvez nunca tenhamos conhecido.
E talvez seja importante compreender que confiar em alguém e confiar na permanência de um vínculo são experiências diferentes.
Não temos como garantir que uma relação durará para sempre. Nenhuma promessa é capaz de eliminar todas as incertezas da vida. Amar não é obter garantias sobre o futuro. Não temos controle sobre a vida.
Mas é também poder viver o presente sem transformá-lo, a todo instante, em uma tentativa de impedir que o futuro nos machuque.
É descobrir, pouco a pouco, que podemos estar com alguém sem deixar de estar conosco; que podemos nos entregar ao encontro sem abandonar nossa autonomia; que podemos amar profundamente alguém sem fazer da permanência dessa pessoa a condição para a nossa própria existência.
E como isso acontece?
Talvez não aconteça por meio de uma decisão consciente, nem porque alguém nos assegure que está tudo bem. Acontece também na experiência cotidiana: nos pequenos gestos, na disponibilidade que se confirma, na palavra que encontra correspondência na atitude, na possibilidade de conversar sobre o que incomoda e na descoberta de que uma diferença não precisa significar uma ameaça.
São justamente os pequenos gestos que, muitas vezes, nos revelam a dimensão do acolhimento.
Imagine que, toda quarta-feira, alguém vá à feira e compre atemoias — sua fruta favorita. Quando você chega à casa dessa pessoa, a primeira coisa que você faz, quase como um pequeno ritual, é comer a fruta que aquela pessoa deixou ali para você com todo o carinho.
Sim, atemoia é tudo de bom. Mas será que é só isso?
Ora... ora... existe uma doçura particular em saber que alguém foi à feira e, em meio a tantas coisas que precisava fazer, lembrou-se de você. Ao escolher aquela fruta, pensou no seu gosto, na sua chegada, naquele momento que vocês compartilham.
A fruta é apenas a fruta. Mas o gesto carrega algo que vai muito além dela.
É como se, antes mesmo de você chegar, já houvesse um lugar preparado para a sua presença.
Não é necessário um grande acontecimento, um presente caro ou uma declaração extraordinária de amor. Às vezes, o acolhimento está justamente na simplicidade: alguém que se lembra, que cuida, que inclui você em sua rotina e demonstra, por meio de pequenas atitudes, que a sua presença importa.
E talvez seja assim que começamos a reconhecer uma relação construída na reciprocidade. Não porque um gesto isolado seja uma garantia de amor, mas porque, ao longo do tempo, ele se soma a tantos outros e compõe uma experiência de cuidado.
Aos poucos, percebemos que não precisamos estar sempre em defesa. Podemos baixar a guarda — não porque tenhamos certeza de que nunca seremos feridos, mas porque começamos a reconhecer que não precisamos viver antecipando uma dor criada em nossas cabeças.
Então surge uma pergunta que talvez valha a pena fazer a nós mesmos:
Como é estar em uma relação na qual posso contar com alguém sem precisar descobrir o tempo todo se sou querida?
Talvez a resposta não venha imediatamente. Talvez seja necessário tempo para que a experiência encontre espaço dentro de nós. Afinal, um vínculo pode ser novo, mas as marcas que carregamos não desaparecem simplesmente porque encontramos alguém diferente.
Por isso, precisamos respeitar nosso próprio tempo.
As amarras vão se soltando aos poucos, à medida que nos permitimos viver, sentir, observar e reconhecer o que está acontecendo. Não precisamos apressar o processo, exigir de nós mesmos uma confiança absoluta ou transformar cada medo em um problema a ser resolvido.
Podemos simplesmente continuar vivendo a relação, um encontro de cada vez.
Até que, em algum momento, percebemos algo que talvez nunca tivéssemos imaginado: estamos ali, no aconchego dos braços daquela pessoa, sem precisar pensar em como fazer para que ela fique, sem antecipar futuros que nem chegaram, sem provar que merecemos aquele lugar.
Estamos apenas vivendo.
E, naquele instante, não precisamos saber o que acontecerá amanhã, mesmo porque a vida não é uma história que termina quando finalmente encontramos o amor.
A vida acontece enquanto atravessamos seus incontáveis momentos.
E talvez o amor também seja isso: a possibilidade de estar com alguém, inteiro e imperfeito, construindo uma relação real, sem garantias de eternidade dos contos de fadas, mas com presença, cuidado, liberdade e reciprocidade.
Até que, quando percebemos, aquele abraço deixa de ser apenas o lugar onde encontramos o outro. Torna-se também o lugar onde descobrimos que podemos descansar de nossas antigas defesas e, sem deixar de ser quem somos, nos permitir estar ali.
No aconchego dos seus braços.
No presente. Sem precisar fugir para o passado nem nos defender de um futuro que ainda não chegou.
Apenas saboreando a mais deliciosa das atemoias e o instante — tão bom que parece eterno — no aconchego dos seus braços...
***
Sandra
Psicanalista
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Uma reflexão sobre como nossas experiências influenciam a maneira como vivemos o amor, construímos vínculos e aprendemos a confiar. Porque uma relação também se revela nos pequenos gestos de presença, cuidado e reciprocidade.