Quando uma palavra não é suficiente: o que acontece entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos comunicar
Há situações em que uma conversa parece simples, mas termina deixando uma sensação difícil de explicar. Alguém pergunta se está tudo bem. Respondemos que sim. Seguimos o dia. Mais tarde, percebemos que havia alguma coisa que gostaríamos de ter dito, mas não conseguimos.
Também acontece o contrário. Alguém próximo diz que não está bem e, sem saber exatamente o que aquela pessoa está vivendo, tentamos interpretar. Perguntamos o que aconteceu, oferecemos uma solução, contamos uma experiência parecida ou simplesmente dizemos que vai ficar tudo bem.
Em muitas dessas situações, existe uma distância entre aquilo que uma pessoa está vivendo e aquilo que consegue comunicar sobre essa experiência. E, do outro lado, existe outra distância entre o que foi comunicado e aquilo que conseguimos compreender.
É nesse espaço que muitas relações encontram ruídos.
Quando “não estou bem” pode significar muitas coisas
Dizer “não estou bem” pode ser uma maneira importante de pedir atenção, mas não nos diz necessariamente o que está acontecendo. Pode haver tristeza, frustração, cansaço, solidão, medo, preocupação ou uma combinação de diferentes experiências. Pode haver também alguma coisa que a própria pessoa ainda não conseguiu compreender.
Isso não significa que deveríamos exigir precisão emocional antes de qualquer conversa. Nem sempre sabemos explicar o que sentimos e, em muitos momentos, conseguir dizer simplesmente “não estou bem” já pode ser uma forma importante de comunicação.
A questão está no que fazemos a partir daí.
Quando ouvimos essa frase, podemos tentar preencher aquilo que não sabemos com nossas próprias interpretações. Podemos imaginar o que aconteceu, comparar com experiências que já vivemos ou oferecer imediatamente aquilo que acreditamos que a pessoa precisa.
Mas existe outra possibilidade: perguntar antes de presumir.
“Quer falar sobre isso?”
“Você consegue me explicar o que está acontecendo?”
“Tem alguma coisa que eu possa fazer?”
São perguntas simples, mas abrem espaço para que a experiência do outro apareça sem precisarmos defini-la por ele.
Escutar também é uma forma de comunicação
Costumamos pensar na comunicação principalmente como aquilo que dizemos. Mas uma conversa também é construída pela maneira como ouvimos.
Quando perguntamos “tudo bem?”, estamos abrindo uma possibilidade de resposta. Se fazemos a pergunta apenas como uma saudação automática, provavelmente não estamos preparados para qualquer resposta.
Isso cria uma espécie de acordo silencioso: esperamos ouvir “tudo bem” e seguimos adiante.
O problema não está na expressão em si. “Tudo bem?” pode ser uma pergunta genuína ou apenas uma forma cotidiana de cumprimento. A diferença está na disposição para escutar o que vier depois.
Uma pergunta feita com interesse real pode criar espaço para uma conversa que não estava prevista. E isso também exige reconhecer que nem sempre a outra pessoa terá uma resposta pronta.
Nem tudo precisa ser explicado imediatamente
Existe uma expectativa de que, quando falamos sobre sentimentos, precisamos saber exatamente o que estamos sentindo e conseguir explicar por quê.
Mas experiências emocionais nem sempre acontecem dessa maneira.
Podemos perceber que estamos diferentes sem saber o motivo. Podemos sentir que alguma coisa nos incomodou sem conseguir identificar exatamente o quê. Podemos precisar de tempo antes de conseguir transformar uma experiência em palavras.
Nesse sentido, dizer “ainda não sei explicar” também pode ser uma forma de comunicação.
Essa frase não encerra a conversa. Pelo contrário, pode indicar que existe uma experiência sendo elaborada e que talvez seja necessário tempo, escuta ou outras perguntas para compreendê-la melhor.
O que muda quando conseguimos comunicar melhor?
Quando encontramos mais recursos para falar sobre nossas experiências, não necessariamente passamos a evitar conflitos, mal-entendidos ou conversas difíceis.
O que pode mudar é a possibilidade de construir essas conversas com mais elementos.
Em vez de “estou mal”, talvez em algum momento consigamos dizer “estou frustrado com o que aconteceu”, “estou cansado e preciso de um tempo” ou “isso me deixou inseguro e ainda estou tentando entender por quê”.
Essas formas de comunicação não são necessariamente melhores porque são mais detalhadas. Elas podem ser mais úteis porque oferecem ao outro uma possibilidade maior de compreender o que estamos tentando compartilhar.
Da mesma forma, quando ouvimos alguém, não precisamos transformar imediatamente aquilo que foi dito em uma solução.
Podemos permanecer na conversa.
Podemos perguntar.
Podemos reconhecer que ainda não entendemos completamente.
E podemos permitir que a outra pessoa encontre as próprias palavras.
Repertório também se constrói nas relações
Ampliar o repertório socioemocional não é apenas uma experiência individual. As relações também podem participar desse processo.
Aprendemos palavras, formas de expressar necessidades, maneiras de perguntar e modos de escutar nas experiências que vivemos com outras pessoas.
Uma conversa em que existe espaço para dizer “não sei explicar” pode ser diferente de uma conversa em que precisamos apresentar imediatamente uma resposta. Uma relação em que podemos perguntar antes de presumir também cria condições diferentes para a expressão.
É por isso que o letramento socioemocional, como prática de educação socioemocional, não diz respeito apenas a reconhecer o que acontece dentro de nós. Ele também pode contribuir para ampliar as formas como construímos comunicação e relações.
Talvez o repertório que precisamos ampliar não esteja apenas nas palavras que usamos para falar sobre nós mesmos. Talvez também esteja nas perguntas que fazemos, naquilo que conseguimos escutar e na disposição para permanecer em uma conversa antes de tentar encerrá-la com uma resposta.
Uma conversa pode começar com “tudo bem?”
Talvez uma das perguntas mais comuns do nosso cotidiano possa ganhar outros significados quando feita com presença. Não porque precisamos transformar toda saudação em uma conversa profunda. Mas porque, quando realmente queremos saber como alguém está, precisamos estar minimamente disponíveis para descobrir que a resposta pode ser diferente daquela que esperávamos. E talvez essa seja uma das possibilidades do repertório socioemocional: não apenas encontrar novas palavras para aquilo que sentimos, mas criar mais possibilidades para perguntar, ouvir, compreender e comunicar.
Porque entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos dizer existe um caminho. E, entre aquilo que alguém diz e aquilo que conseguimos compreender, também.
Para continuar a conversa
Essa reflexão parte do segundo episódio da série Da Semântica dos Sentimentos ao Letramento Socioemocional, realizada pelo Instituto Bem do Estar com a contribuição de Daniela Cais.
No episódio, a conversa passa pela relação entre linguagem, sentimentos e relações humanas e pelo que pode acontecer quando conseguimos ampliar nossas possibilidades de reconhecer e comunicar aquilo que estamos vivendo.
E quando alguém pergunta “tudo bem?”, você costuma perguntar de volta ou já está preparado para ouvir uma resposta diferente?
Como ampliar o repertório socioemocional pode ajudar a comunicar o que sentimos, fazer perguntas, escutar melhor e construir relações mais conscientes.