ESTAR À PROCURA | 03

Histórias De Quem Procura Alguém

Prefácio

Existem histórias que começam antes mesmo do primeiro encontro. Histórias que se escrevem no silêncio, nas faltas, nos vazios, nas tentativas de se reconstruir depois do amor que não deu certo. Estar à procura é sobre isso: uma série que traz relatos de quem, de uma maneira ou de outra, quer encontrar aquela parte que está faltando, preencher aquele vazio que machuca.

Nesta primeira história conhecemos o Marcos e o Pedro, que vivem suas solidões de formas diferentes, mas que carregam a mesma pergunta dentro do peito - “Será que alguém, um dia, vai me enxergar de verdade? Não to falando de olhar, mas de enxergar, sabe? Atravessar a armadura que eu construí por todos esses anos e verdadeiramente me ver.”

Marcos vem de um amor longo, tóxico e cansado. Saiu dele com a alma amarrada nos restos do que acreditou um dia ser amor. Pedro, ao contrário, tenta se perder nas madrugadas e nos corpos que passam, acreditando que a liberdade pode preencher o que a solidão insiste em deixar vazio. Ambos caminham como quem procura um pedaço seu que se desprendeu, algum lugar que o coração possa finalmente descansar.

Até que o acaso (pra quem acredita em acaso), ou o destino (pra quem acredita em destino), decide cruzar seus caminhos. Primeiro num olhar breve, depois num reencontro quase impossível. E é ali, entre o medo e a curiosidade, entre o cansaço e a coragem, que algo novo nasce. Não é fácil, nem óbvio.

É apenas o início de uma história possível.

  • Foram quase dez anos da minha vida. Dez anos tentando acreditar que o amor era aquilo, segurar o peso de dois, se calar pra não magoar, se anular pra não incomodar. Hoje, o silêncio da casa parece muito mais honesto do que qualquer palavra que ele me dizia. Ainda é muito estranho acordar e não ouvir o som da cafeteira, o barulho do chuveiro, o "bom dia” que aos poucos foi virando só "dia” pra depois inexistir. Engraçado como o silêncio ensurdece de tão alto quando a gente tá sozinho. Passei anos ouvindo aquela voz, os passos pela casa, as portas batendo, os berros das brigas, as risadas dos raros dias felizes.

    Eu demorei muito pra entender que o amor não devia doer tanto. Que não era normal se acostumar com a indiferença, com as ausências, com as traições, com as desculpas, com as mentiras. Foram dez anos tentando ajeitar o que nunca coube. Eu sempre achei que amor era mais que insistir, era resistir. Que quando a gente ama, aguenta. Eu achava que amor era sobre durar.

    Eu lembro bem do começo. A forma como ele me olhou naquele dia. Ele não me olhou, ele me viu, sabe? E pra um menino que passou a vida inteira tentando ser aceito, ser visto é uma sensação estranha, boa, quente, é como um abraço de mãe, que protege. Mas isso foi no começo. Pouco tempo depois o olhar dele mudou completamente, e eu comecei a desaparecer diante dos meus próprios olhos. Porque nos olhos dele eu já tinha desaparecido há tempos.

    Várias vezes ele saía e não voltava. Outras, dizia que estava com os amigos, mas voltava com cheiro de outro. Eu fingia que não percebia, achava que o problema era comigo, que eu não era bonito o bastante, interessante o bastante, masculino o bastante. E sempre perdoava, acolhia, cuidava, idolatrava. A gente aprende a se culpar pra não encarar que o amor não existe mais no outro. É como se fosse uma defesa da mente. É ela tentando evitar o sofrimento inevitável, mas que só piora porque faz acumular o desespero, a angústia, a raiva de si mesmo.

    A real é que eu me acostumei a ser tratado mal. É muito difícil admitir isso. Eu confundia presença com afeto, controle com cuidado, atenção com amor. Até o dia que percebi que eu não sabia mais quem eu era. Olhei no espelho e vi alguém cansado, abatido, acabado. Um rosto sem brilho, velho, um corpo que só existia pra sustentar uma alma triste, e que se move na inércia da mesmice do dia a dia.

    Eu sempre fui o que ficava, o que perdoava, o que acreditava que, com paciência, tudo se resolve. Que amor de verdade é ceder, é persistir. Mas às vezes, amar é ter coragem de ir embora. E foi o que eu fiz.

    Sair daquele apartamento foi como sair de mim mesmo. Cada canto guardava uma lembrança, a planta que ele nunca regava, o livro que nunca leu, o gato que ele nunca cuidou. É curioso como o corpo se acostuma com a presença do outro. E depois, quando some, tudo desmorona, esvazia.

    Eu fui embora, mas uma parte de mim ainda ficou por lá. Nos quadros tortos, nas roupas que ele nunca devolveu, nas fotos na geladeira que a gente nunca tirou, nos sonhos que a gente nunca viveu. Eu ainda me pego, às vezes, arrumando o travesseiro do lado dele, como se ele fosse aparecer e dizer que tudo vai ficar bem, que dessa vez vai ser diferente, como ele fazia todas as outras vezes. O corpo demora pra desaprender o que viveu tanto tempo.

    Hoje eu tento me reerguer devagar. Me encontrei na terapia e nela tenho me conhecido mais e aos poucos retomado o protagonismo da minha vida. Aprendi a falar o que incomoda, a botar pra fora o que dói, a tirar a culpa que não me pertence. Sem ela não sei o que seria de mim, provavelmente teria me afundado na dor que ainda está aqui, mas cada vez mais sem voz.

    Tento preencher o vazio com qualquer coisa: amigos, trabalho, academia, aplicativos, qualquer coisa que me faça esquecer. Mas tudo é raso, apressado, descartável. É como se as pessoas estivessem sempre com pressa de sexo sem sentido, sem razão, sem nada. E no dia seguinte, nada, nem um bom dia, nem uma mensagem, nada.

    E eu só queria respirar. Sentir de novo que posso confiar, que posso ficar em paz do lado de alguém. Mas é difícil quando se vem de uma relação que te ensinou a se encolher, a desaparecer.

    Mas tem dias em que eu consigo respirar melhor. Dias em que eu penso que talvez exista alguém por aí que não me peça pra ser menos, pra colocar outra roupa, pra falar diferente, pra não dar “pinta". Que não jogue em mim uma projeção de como ele quer que eu seja.

    E se um dia eu encontrar esse alguém, não perfeito, mas inteiro, talvez eu entenda que esses anos todos de dor também fazem parte da bagagem que eu levo pelo caminho. Um aprendizado necessário.

    Por enquanto, sigo. Sozinho. À procura.

  • Ontem eu saí de novo. Balada nova, gente bonita, música alta, copo cheio. Às vezes acho que gosto mais da idéia da festa do que da festa em si. A adrenalina boa da espera, se arrumar, o “esquenta” com os amigos e a certeza de que hoje a noite promete. Mas nunca é a promessa que eu gostaria que fosse cumprida.

    Lá dentro é sempre igual. Luzes piscando, corpos se esbarrando, sorrisos fáceis demais, bocas prontas pra beijar quem for. Eu danço, rio, uso, bebo, beijo, faço tudo isso várias vezes, não necessariamente nessa mesma ordem, mas quanto mais melhor. Mais bebida, mais risadas, mais loucura, mais bocas. E por algumas horas isso parece fazer tanto sentido.

    Mas o problema é sempre depois. Quando as luzes acendem, a música acaba e eu volto pra casa. Sozinho. Depois da dificuldade de achar a chave, entro como se pisasse pela primeira vez ali, um lugar quase desconhecido. O quarto parece minúsculo. O silêncio pesa, embora ainda ouça o zumbido da música alta. Eu me olho no espelho e quase não me reconheço. Um corpo cansado, o rosto meio apagado, o olhar que não consegue focar no próprio reflexo no espelho. Rosto que não é o meu, não parece o meu.

    Perdi a conta de quantas vezes dormi como cheguei, no sofá, sem nem tirar a roupa do corpo. Perdi a conta dos pesadelos que tive nessas noites mal dormidas cheias de álcool, drogas e saliva. E no dia seguinte aquele gosto de ressaca e uma sensação estranha de arrependimento profundo. Não é culpa, exatamente. É um vazio que não passa.

    Sempre digo que dessa vez vai ser diferente. Que alguém que eu conhecer na pista, ou no banheiro, ou num aplicativo, vai ficar. Vai lembrar do meu nome no dia seguinte, vai ficar pro café da manhã, vai perguntar se eu dormi bem. Mas quase ninguém quer realmente isso. Todo mundo parece com pressa de sentir, de esquecer, de gritar "PRÓXIMO!”.

    Eu também já fui (ou sou?) assim. Quis viver tudo, rápido, sem pensar. E por um tempo, funcionou. A gente aprende a confundir intensidade com interesse, prazer com conexão, tesão com amor. Só que depois de tantas noites, tantos corpos, tantas promessas ditas entre goles e beijos rápidos, o coração, o corpo e a mente começam a cansar.

    Mas é difícil manter a esperança quando tudo à sua volta parece descartável. Meus amigos dizem pra aproveitar, que eu tô no auge, que é pra curtir. E eu tento. Juro. Mas quando o dia amanhece e eu volto pra casa, sozinho, o auge parece só uma desculpa pra não encarar a solidão. Sem contar quando eu acordo numa cama que não é minha, num colchão que não é meu, do lado de alguém que eu não lembro do nome, do papo, de nada.

    Esses dias eu fiquei pensando na última vez que alguém realmente se importou comigo. Faz tanto tempo que nem lembro o nome. Lembro só da sensação de alguém me ouvindo de verdade, me vendo de verdade, me olhando sem pressa de ir embora. Acho que é isso que eu procuro, mesmo sem admitir. Alguém que queira ficar.

    Tem algo em mim que ainda acredita nisso que chamam de amor. Mesmo que eu diga que não. Mesmo que eu faça piada sobre isso. Mas no fundo, eu quero encontrar alguém. Alguém que me tire desse ciclo. Alguém que me faça querer ficar.

    Pensei em fazer terapia. Ouvi dizer que ajuda muito. Será que não é coisa de louco? Será que pode me ajudar a descobrir o porquê dessa repetição sem fim? Se um dia ela vai ter fim? Se eu quero que ela tenha um fim? Acho que vale a pena tentar.

    Outro dia, deitado na cama depois de uma dessas noites, eu pensei: talvez o problema não seja não encontrar alguém. Talvez o problema seja que eu ainda não me encontrei.

    E continuo mesmo assim. Sozinho. À procura.

  • Por Marcos

    Eu não queria sair de casa naquele dia. Estava chovendo, e a chuva sempre me dá vontade de ficar quieto, imóvel. Mas o apartamento parecia pequeno demais, e o silêncio, grande demais. Senti que se ficasse ali, ia mergulhar de cabeça em algo cinza, pesado, assustador. Uma pressão surgiu no peito, um nó na garganta, uma vontade de chorar. Só consegui pegar o celular e a chave e saí dali, apesar do peso nas pernas que me fizeram praticamente ir arrastado pro elevador.

    Ignorei a chuva e corri até o café/livraria da esquina, o de sempre, o que sempre ia com ele. Sentei no lugar que sempre me sentava com ele. Pedi o que ele pedia. Sempre. “Um expresso, por favor?”. Peguei um livro que já tinha lido. Pelo menos era uma companhia, algo que eu conhecia e já sabia o final. Final triste. Sempre.

    Lá fora a rua corria, lenta, como eu. Meio inerte, olhando fixo pro vazio, mente longe, olhar parado no nada. Pensei em como seria bom se ficasse assim, mexendo meu café, num loop eterno, esperando alguém pra estalar os dedos e me tirar desse devaneio. Mas está tão bom. Quero ficar aqui. Me deixa aqui.

    Foi então que ele entrou. Não sei se percebi de imediato. Minha visão já estava desfocada de tanto olhar pra porta. Porta que ele entrou. Acho que primeiro ouvi a risada, leve, rápida, um som que destoava da chuva. Ele pediu um café - “Um duplo, por favor” - e virou, como se estivesse procurando alguém. Claro, ele deve ter um alguém.

    Mas quando ele virou, nossos olhos se encontraram. Não foi um encontro de estranhos, rápido, seco, sem vida. Foi outra coisa. Um reconhecimento. Aquela sensação de já ter visto aquele olhar, de já ter vivido aquele momento. Como se aquele rosto já tivesse povoado algum sonho antigo, ou algum desejo que eu não consegui lembrar. Juro que tentei.

    Claro que desviei na hora. Eu devia estar com um olhar péssimo, de pedinte. Pedinte de amor. Voltei pro livro, tentando ler uma parte qualquer pra que minha atuação não parecesse uma novela mexicana. Levantei de leve meu olhar. Ainda me olhando. Ele se levanta. Pera. Parece que está vindo até minha mesa. Calma. Deve ser impressão ou loucura minha. Não, é real. Ele está vind..

    - Com licença, posso?

    E aponta pro cardápio. Eu não consigo pronunciar uma só palavra, num misto de vergonha, de culpa. Eu digo sim com a cabeça e ele agradece, também com a cabeça, mas parece hesitar em sair dali, como se quisesse dizer mais alguma coisa, ou como se esperasse eu dizer alguma coisa. Mas a coragem não veio daqui, e nem dali. A gente se acostuma tanto a esperar o outro fazer o primeiro gesto que esquece que o amor também requer uma dose considerável de risco.

    Três palavras. E uma sensação de que tínhamos tantas outras pra dizer. Ele foi embora tão rápido quanto chegou. Eu fiquei ali mais um tempo, tentando entender porque aquilo tinha mexido tanto comigo. Talvez porque, por um instante, eu tenha sentido que algo em mim ainda estava vivo. Que eu ainda podia ser visto. Que eu ainda tinha chance.

    E isso, já foi um recomeço.

    Por Pedro

    Eu quase não saí de casa naquele dia. Tava de ressaca, com o corpo cansado, a cabeça girando. Tinha prometido pra mim mesmo que ia passar o sábado em casa, mas o vazio bateu forte. Aquele ensurdecedor. Então saí. A chuva caía pesada, e um café quente era o que eu precisava pra tirar o gosto de bocas, bebidas e cigarros. Talvez me ajudasse a tirar o peso de mais uma balada, mais uma noite em vão, mais um tempo perdido procurando algo que eu sei que não vou encontrar nos lugares por onde ando.

    Nunca tinha estado ali, um café na esquina de casa, mas sempre quis entrar. Talvez uma curiosidade mórbida misturada com uma esperança de que num lugar desses, diferente dos que estou acostumado, algo aconteça, não sei bem o que, mas qualquer coisa que me tire dessa repetição, que me mostre que eu ainda tenho jeito, que ainda há solução.

    Entrei todo molhado, uma sensação imediata de leveza, de cheiro bom, de vida, bem diferente da noite passada, lugar sujo, escuro, pesado. Cumprimentei o garçom como se já o conhecesse e pedi um duplo pra ver se acordava. Mas a barriga fez aquele barulho característico de quem só tem resquícios de líquidos de procedência duvidosa e sobras de um vazio que se misturam, formando um buraco oco que repete o eco da música de ontem.

    Quando virei pra procurar um cardápio, vi ele.

    Alguém sozinho, encostado na janela, com um livro aberto e um olhar fixo na porta que entrei. Tinha algo nele que me chamou a atenção, talvez a calma, ou o jeito de quem carrega uma saudade antiga, ou uma mágoa antiga, mas que se agarra pra não deixar ir embora, como se fosse a única coisa que ele conseguisse sentir. Me deu uma vontade estranha de saber mais, de falar oi, de ficar.

    Ele olhou de volta. Tentei disfarçar que já estava olhando fixo pra ele há alguns segundos. Foi rápido. Desviei ao mesmo tempo que ele. Foi o suficiente pra bagunçar o resto do meu dia.

    Fiquei ali parado, pensando no que fazer. A verdade é que eu não conseguia parar de olhar. Tinha uma serenidade nele que me deu um tipo de paz que eu não sentia há muito tempo. E também um medo, medo de querer, de acreditar, de me deixar tocar por algo que pudesse ir embora depois.

    Quis levantar e falar com ele. Inventar um pretexto qualquer. Pera. O cardápio. Lá estava, embaixo do livro aberto. Na mesa dele. As pernas travaram, a boca secou. Estranho, ontem eu fiz isso nem sei quantas vezes. Por que o nervosismo? A mão suada? Enfim virei o café quente, levantei e fui até ele sem saber muito o que falar, só fui.

    - Com licença, posso?

    Nem eu acreditei nessas palavras. Apontei para o cardápio. Ele me olhou. Ah, aquele olhar! Queria sentar, dizer como me sinto uma criança diante de algo novo que não consegue nomear, algo bom. Por alguns segundos o silêncio reinou, mas não o silêncio ensurdecedor do vazio, e sim o silêncio confortante do abraço, aquele que sem dizer nada, diz tudo.

    Mas nada saiu. Depois do sim com a cabeça, peguei o cardápio e voltei pra minha mesa. Onde foi a coragem do Pedro que está no auge, aproveitando tudo e todos? Fiquei mais uns minutos ali e fui embora, sem olhar pra trás, sem cultivar esperanças. Saí na chuva e pensei que talvez nunca mais fosse vê-lo. E por todo o resto daquele dia, fiquei com a sensação de que deixei algo pra trás naquele café.

    Algo que parecia ser o que eu venho procurando.

  • Por Marcos

    Eu precisava só resolver umas coisas, nada demais. Uma ida rápida no supermercado, comprar umas coisas pra casa, um vinho, um pão, qualquer coisa que me fizesse companhia naquela noite fria. Pelo menos não chovia. Não esperava nada. Nem pessoas, nem encontros, nem lembranças.

    Mas o destino, às vezes, tem um senso de humor curioso.

    Entrei no supermercado como quem entra num parque de diversões e fui direto pro corredor dos vinhos. Entre um Cabernet e um Shiraz, vi um rosto conhecido. Foi rápido, mas o coração reconheceu antes da mente entender a grandiosidade daquele momento.

    Era ele.

    O homem do "duplo”, do café da chuva, do “Com licença, posso?", do olhar que ficou comigo desde aquele dia. Por um segundo pensei em fingir que não vi, em ir embora. Essas coisas sempre me deixam sem chão, paralizado no ar, a idéia de reencontrar o que me fez sentir algo, algo bom.

    Mas fiquei. Respirei fundo como se fosse meu último suspiro de ar. Ele estava distraído, escolhendo uma garrafa na prateleira dos vinhos mais baratos, aqueles de gosto duvidoso mas que servem bem ao propósito de quem não quer lembrar de nada no dia seguinte.

    Pensei em falar, mas o medo veio junto. E se ele não lembrar de mim? E se for só coisa da minha cabeça? E se eu estiver confundindo e não for ele? Sim, é ele!

    Mas o corpo falou antes da voz sair e sem querer esbarrei em uma garrafa e quase derrubei, mas foi o suficiente pra ele me notar, levantar os olhos e me olhar. Olhar não, me enxergar.

    - A gente se conhece, né? - ele disse

    E ali eu percebi que a vida, às vezes, devolve o que a gente achou que tinha perdido.

    Por Pedro

    Eu acho que naquela noite o vazio em mim contaminou minha geladeira. Nada. Pra não dizer nada, 1 ovo, meio pote de manteiga, um final de um suco de goiaba e meio leite com um odor bem duvidável, sem contar a cor já esverdeada. Sábado à noite, eu e a ressaca, dupla inseparável, quase melhores amigos.

    Fui no mercado da esquina, com aquele humor arrastado de quem só quer voltar pra cama. Enquanto empurrava o carrinho, pensei em como tudo andava igual. As mesmas festas, mesmas conversas vazias, mesmas voltas pra casa com a sensação de repetir sempre os mesmos erros.

    Imediatamente pensei em afogar minhas mágoas com um bom vinho, um bom filme, uma boa pipoca. Decidi até desligar meu celular pra não dar chance pros amigos me encontrarem. Quero aproveitar minha solitude, quebrar o ciclo, pelo menos hoje, acho que eu consigo.

    Entrei no corredor das bebidas já tentando achar o vinho mais barato pra cumprir a função de me entorpecer e me colocar nos braços de Morfeu o mais rápido possível. Foi quando vi alguém quase derrubando uma garrafa do meu lado.

    Era ele.

    Lá estava o homem do café, do cardápio. O mesmo olhar de solidão, machucado, de quem carrega histórias doloridas guardadas no peito. Tinha alguma coisa nele que me fazia querer ficar perto. Por um instante achei que era efeito da ressaca, algum rebote da loucura da noite anterior. Mas não, era ele. E quando ele me olhou, não tive dúvida. Era real.

    Tive as mesmas sensações do café, coração acelerou, mãos suaram, olhos se fixaram. Pensei em fingir que não vi, mas algo em mim disse que, dessa vez, eu devia agir.

    Ajeitei a garrafa que ele quase derrubou e deixei as palavras saírem da boca, sem pensar:

    - A gente se conhece, né?

    Ele sorriu. E o sorriso dele era um abraço.

    O Diálogo

    - Do café - disse Marcos - o dia da Chuva!

    - É… - respondeu Pedro, rindo - Eu lembro. Achei que nunca mais ia te ver.

    - Eu também

    Silêncio. Um silêncio bom, daqueles que não pesam. Mas que parecia eterno mesmo tão curto.

    - Parece que o destino quis me lembrar de comprar vinho hoje - brincou Marcos.

    - Ou quis te lembrar de mim… - respondeu Pedro, num tom meio tímido, meio ousado.

    Eles riram. E pela primeira vez em muito tempo pros dois, o riso não veio pra esconder a dor ou o vazio.

    Ficaram ali, conversando sobre nada e sobre tudo, sobre o frio, o caos da cidade, o gosto pelo café, a solidão disfarçada de rotina. As palavras iam e vinham com leveza, como se o tempo tivesse dado uma trégua. Como se o passado estivesse prestes a ficar no passado, e o futuro a partir dali fosse uma surpresa boa, prestes a ser revelada.

    Quando estavam quase se despedindo, Pedro olhou pra Marcos e disse:

    - Você topa um café amanhã? Sem chuva dessa vez?

    Marcos demorou dois ou cinco segundos pra responder, o coração batia tão forte que ele precisou respirar mais fundo.

    - Sem… Quer dizer Sim. Digo, Sim, topo esse café sem chuva.

    E ali, entre garrafas e desejos, Marcos e Pedro entenderam que talvez, apenas talvez, a tal procura possa ter chegado ao fim.

    E seguiram. Sozinhos. Por enquanto.

 

Quem escreve?

GUSTAVO FERRAZ

Psicanalista formado pelo Instituto Sedes Sapientiae e fundador da página @todomundotemalgo, que traz conteúdo votado à democratização da psicanálise e do cuidado com a mente. Psicanalista clínico que atua promovendo uma escuta qualificada, empática e diálogos acessíveis sobre saude mental. Acredita que cuidar da mente é um gesto de dignidade, coragem e transformação, e dedica-se a tornar a psicanálise mais humana, inclusiva e presente no cotidiano das pessoas.


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