Estar na Pele da Bruna
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Por que eu não percebi
Este é um texto longo. Porque a história também não é curta.
Eu demorei muito pra entender que estava vivendo um relacionamento abusivo.
Não porque faltassem sinais, mas porque eles não pareciam violência.
Pra explicar isso, preciso começar do começo.
Quando conheci o fulano, ele parecia um cara sensível. Todo mundo dizia que ele estava muito apaixonado. Eu também achava. Eu também estava.
Ele ia na minha casa todos os dias. Absolutamente todos os dias.
E sempre dizia que não deveria estar ali de novo. Que precisava ir pra casa, se organizar. Mas que não conseguia ficar longe.
Quem não fica lisonjeada com isso?
Ele dizia que algumas coisas só aconteciam comigo. Por exemplo, dizia que nunca tinha falado “eu te amo” pra ninguém antes. Só pra mim.
Ele fazia questão de sair com meus amigos e dizia que eles eram muito legais. Eu sou uma pessoa rodeada de amigos, de verdade. Tenho muitas turmas, muitas histórias. Ter alguém que fazia questão de estar presente nelas era importante pra mim.
Ele fez questão de me apresentar à família dele. E a família dizia que nunca tinha visto ele assim. Como era comigo.
Eu tentei terminar. Ele era mais novo, estava em outra fase da vida. Eu sempre fui cautelosa com relações, mais racional do que emocional. Mas ele sempre voltava. Insistia. Quebrava meus argumentos racionais.
Em vez de mandar mensagem, ele ligava. Ficávamos horas no telefone.
Uma vez tive um problema no trabalho. Era sábado, cinco e meia da manhã, e eu precisava intermediar uma briga num projeto. Ele ficou preocupado. Fez questão de ir comigo. Mesmo morrendo de sono.
Depois ele mudou.
Eu não sei como, nem quando.
Mas lembro de uma frase que eu dizia pra ele:
“Você foi um namorado incrível, mas não é um bom marido.”
Ele deixou de fazer todas as coisas que fazia antes.
Meus amigos não eram mais legais. Ele não me acolhia mais. Ao contrário, me criticava o tempo todo.
Ele não era parceiro. Perdeu meu aniversário porque ficou dormindo. Não dizia mais que me amava de forma espontânea. Até o sexo mudou. Ficou preguiçoso.
Aos poucos, eu fui sendo escanteada.
Deboche disfarçado de carinho.
Críticas constantes, mas sempre disfarçadas.
Ele dizia que eu só reclamava. Que isso fazia ele ter menos vontade de fazer as coisas.
Ou seja, o comportamento dele tinha mudado por culpa minha.
Quando eu tentava conversar, ele fugia. Depois de alguns dias, eu pressionava. E ele dizia que isso estava piorando tudo.
E eu surtei?
Claro que sim. Qualquer pessoa surtaria naquele contexto.
E aí ficava pior. Porque quando ele fazia algo realmente grave, como perder um compromisso de trabalho que eu tinha indicado e que envolvia a minha reputação, se eu reagisse, o problema passava a ser o meu tom.
Ele estava deprimido. Eu não entendia a doença dele. Eu fazia tudo piorar.
E, com essa vitimização, fui achando que não falar era melhor.
Foi assim que nasceu a submissão silenciosa.
Quando algo era absurdo demais, eu ainda questionava. Chorava. Cobrava. Surtava.
E depois, pedia desculpas.
Porque, aparentemente, tudo o que eu dizia piorava as coisas.
Não importava o quão absurda fosse a atitude dele, nem o quanto me machucasse. Ele era um coitado deprimido. E eu não tinha sensibilidade suficiente para entender.
Então eu me calava.
Me calava até aguentar sabe-se lá quantas mancadas.
E o ciclo recomeçava.
“Sério que você não percebeu?”
Não. Não percebi.
Ou percebi e preferi não perceber.
Porque, nessa altura, você faz de tudo pra tentar voltar ao lugar onde tudo começou.
Eu tinha desculpas.
Pandemia. Quem não ficou mal na pandemia?
Ele lutava contra a depressão. Depressão é doença, não posso criticar atitudes.
É só uma fase.
Mas não foi.
Na verdade, foi sim.
Foi só uma fase. Uma fase da escalada da violência.
Do sutil ao inegável.
Traição.
Enforcamento.
Quando descobri a traição, senti alívio. Finalmente tinha um motivo óbvio pra sair. Sem precisar enfrentar todo o resto.
Mas aí veio a agressão física. Ele me enforcou.
E, por mais assustador que isso seja, foi ainda mais óbvio.
Ali eu rompi o ciclo.
Mas não vou negar: eu não sei o que teria feito se ele tivesse pedido desculpas. Ele não pediu. Nunca.
Tentou se vitimizar. E, quando isso não funcionou, vieram os xingamentos diretos. Não mais disfarçados.
E, claro, a culpa era minha.
Eu tinha feito ele se tornar aquele monstro.
A abusiva era eu.
Eu não acreditei.
Mas também não duvidei completamente.
Foi o tempo. O afastamento. Muitas noites mal dormidas. E ter um filho pra priorizar que me fizeram enxergar: não.
Eu não transformei ele naquele monstro.
Eu não sou abusiva.
Eu não sou culpada.
Foi um longo caminho até essa certeza.
E toda vez que eu me questionava, eu tinha um trunfo: a realidade. A vida dele sempre caótica. A minha, organizada. Nenhum transtorno diagnosticado em mim.
Esse looping se repetiu muitas vezes. Até que, finalmente, eu acreditei de verdade. Sem nenhuma dúvida.
Demorou.
Mas chegou.
Eu não sou o monstro.
Aquele que eu conheci e amei nunca existiu como eu acreditava.
Era fantasia. Fingimento. Projeção. Estratégia de controle.
E não demorou pra eu deixar de amar o monstro.
Mas demorou, muito, pra eu deixar de amar a fantasia.
***
Bruna Ferreira
Advogada de formação, hoje gerente de projetos em tecnologia (onde os prazos são curtos e os cafés longos). Mãe do Luca — especialista em noites mal dormidas e amor incondicional. Sobrevivente de violência doméstica, transformando dor em força e ajudando outras mulheres a fazerem o mesmo. Sempre em busca de evolução (e umas horinhas de sono também).
Relacionamentos abusivos raramente começam com violência explícita. Eles começam com intensidade. Com presença. Com algo que parece cuidado. E mudam.