Estar na Pele da Camila

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Fragmentos de uma Voz Ouvida

Hoje aconteceu uma coisa pequena. Pequena para o mundo. Pequena para um tribunal acostumado com milhares de páginas, nomes, números e dores. Mas enorme para mim.

Hoje meu e-mail foi juntado aos autos.

E pela primeira vez em muito tempo, eu senti que talvez alguém tivesse me ouvido.

Não uma audiência. Não um grande discurso. Apenas uma movimentação silenciosa em uma tela fria de computador. Um documento anexado. Um encaminhamento ao Ministério Público. Algumas linhas formais.

Mas atrás daquela tela, existia alguém.

Alguém que abriu meu relato.
Alguém que leu minhas palavras.
Alguém que, por alguns minutos, soube que eu existia.

Depois de tanto silenciamento, tanta dor distorcida, tanta violência transformada em narrativa contra mim, eu comecei a esquecer como era ter voz.

No processo de guarda, muitas vezes eu me senti reduzida a laudos, acusações, interpretações sobre quem eu era como mãe, mulher e pessoa. Como se minha dor precisasse sempre ser provada até a exaustão. Como se sobreviver não bastasse.

E ainda assim, muito machucada, eu continuei escrevendo.

Escrevendo entre crises de ansiedade.
Escrevendo no puerpério.
Escrevendo com medo.
Escrevendo enquanto tentava cuidar dos meus filhos e juntar os pedaços de mim mesma.

Hoje, quando aquele e-mail entrou oficialmente no processo, alguma coisa dentro de mim também entrou de volta no mundo.

Muito lentamente, silenciosamente, como alguém remendado pela dor tentando reaprender a existir.

Eu não sei quem leu.
Não sei quem clicou.
Não sei quem estava do outro lado daquela tela.

Mas pela primeira vez em muito tempo, eu senti que minha palavra pesou para alguém.

E isso, para quem passou tanto tempo sendo desacreditada, já era quase um milagre.

E eu sigo.

Pela Luanna.
Pelo Rafael.
Por mim.
E pela força silenciosa de tantas mulheres que sobrevivem todos os dias dentro das engrenagens frias do sistema jurídico brasileiro.

Mulheres que choram em silêncio depois de ler um despacho.
Que tremem ao abrir um e-mail.
Que tentam explicar dores invisíveis em petições, laudos e boletins de ocorrência.
Mulheres que continuam lutando mesmo emocionalmente exaustas, desacreditadas e feridas.

Hoje eu entendi que, às vezes, ser ouvida começa de maneira quase imperceptível.
Um documento juntado.
Uma palavra lida.
Um relato que alguém decidiu não ignorar.

Pode parecer pouco para quem olha de fora.
Mas para quem passou tanto tempo sendo silenciada, isso pode significar o começo da reconstrução da própria existência.

Eu ainda estou remendada pela dor.
Ainda estou aprendendo a respirar depois de tudo.
Mas sigo.

Porque sobreviver também é uma forma de resistência.

Camila.
Mãe.
Mulher.
Psicóloga.

***

Camila Reis de Lima Melo

Sou mãe de dois filhos, mulher de 32 anos, psicóloga e sobrevivente de um relacionamento abusivo marcado por violência doméstica, psicológica e financeira. Transformei minha dor em escrita, dando voz à maternidade ferida, ao abuso emocional e à força de uma mulher que segue lutando pelo direito de amar, existir e permanecer presente na vida da própria filha.

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