Estar na Pele da Bruna

Página 12

Anos depois, algumas marcas permanecem.

Não da forma dramática que as pessoas imaginam. Não é viver chorando todos os dias ou revivendo cada detalhe o tempo inteiro. Às vezes, a violência psicológica continua existindo de maneiras muito mais sutis.

Ela aparece quando você percebe que ainda sente necessidade de se justificar excessivamente. Quando escreve e reescreve mensagens simples para ter certeza de que ninguém poderá distorcer suas intenções. Quando uma crítica pequena parece grande demais porque seu corpo aprendeu que qualquer conflito pode virar humilhação.

Ela aparece no cansaço de precisar parecer racional o tempo inteiro.

Muitas mulheres que passaram por relações abusivas desenvolvem quase uma obsessão por coerência. Querem explicar tudo perfeitamente. Organizar cronologias. Guardar provas. Antecipar interpretações. Como se qualquer falha narrativa pudesse colocá las novamente no lugar de “louca”, “instável” ou “abusiva”.

Porque durante muito tempo foi exatamente isso que aconteceu.

Existe também uma dificuldade estranha de confiar na própria memória emocional. Você lembra do que viveu, sabe racionalmente o que aconteceu, mas às vezes ainda sente um eco das mentiras que ouviu tantas vezes.

 “Talvez eu tenha exagerado.”

“Talvez eu também tenha sido horrível.”

“Talvez a culpa fosse minha.”

Não porque essas ideias façam sentido hoje. Mas porque ninguém passa anos ouvindo as mesmas distorções sem carregar algum resíduo delas.

E talvez uma das partes mais difíceis seja perceber que o corpo demora mais para sair da guerra do que a vida prática.

O processo termina. A rotina melhora. O agressor se afasta. Mas o sistema nervoso continua preparado para o próximo ataque.

Você se assusta com facilidade.

Fica hipervigilante.

Sente necessidade de controlar ambientes.

Percebe manipulação rapidamente.

Tem dificuldade de relaxar completamente perto de certas pessoas.

Às vezes, basta receber uma mensagem em determinado tom para voltar, por alguns minutos, ao mesmo estado emocional de anos atrás.

Não porque você ainda esteja presa àquela relação. Mas porque o corpo lembra do que precisou fazer para sobreviver nela.

Outra consequência silenciosa é a culpa pelas próprias reações. Muitas vítimas lembram mais do dia em que explodiram do que dos anos em que suportaram caladas. Como se o momento do colapso invalidasse tudo o que veio antes.

Mas pessoas emocionalmente saudáveis não costumam passar anos tentando convencer alguém a enxergar a própria dor. Elas não vivem em estado permanente de defesa psicológica. Não precisam lutar o tempo inteiro para preservar a própria versão da realidade.

A violência psicológica faz isso. Ela desloca o foco do comportamento abusivo para a reação da vítima. E, aos poucos, a pessoa começa a acreditar que seu maior erro foi ter quebrado depois de ser empurrada até o limite.

Talvez por isso a validação seja tão importante. Não por vingança. Não por orgulho. Mas porque existe algo profundamente enlouquecedor em viver uma violência que ninguém vê.

Quando finalmente alguém reconhece o que aconteceu, uma parte da mente consegue descansar. Como se o corpo entendesse, pela primeira vez, que não precisa mais lutar sozinho para provar que a dor era real.

E mesmo depois da cura começar, algumas marcas continuam existindo. Mas elas deixam de ser prisão. Viram memória. Viram aprendizado. Viram limite.

A recuperação talvez não seja voltar a ser quem você era antes. Talvez seja se tornar alguém que nunca mais aceita precisar desaparecer para manter outra pessoa inteira.

 

***

Bruna Ferreira

Advogada de formação, hoje gerente de projetos em tecnologia (onde os prazos são curtos e os cafés longos). Mãe do Luca — especialista em noites mal dormidas e amor incondicional. Sobrevivente de violência doméstica, transformando dor em força e ajudando outras mulheres a fazerem o mesmo. Sempre em busca de evolução (e umas horinhas de sono também).

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