ESTAR À PROCURA | 04
Histórias De Quem Procura Alguém
Prefácio
Nem toda violência grita.
Algumas acontecem no meio da música alta, das luzes piscando, dos risos que parecem inofensivos. Algumas vestem o nome da conquista. Outras, o peso do silêncio.
Esta história não é sobre uma noite.
É sobre o que fica depois dela.
Sobre a diferença entre ser ouvido e ser desacreditado.
Sobre o abismo entre duas versões da mesma história mas nunca da mesma verdade.
Nesta história de Estar à Procura, acompanhamos duas vozes que não se encontram: a de quem tenta sobreviver ao que aconteceu e a de quem insiste em não nomear o que fez.
Ler este conto é atravessar um território delicado, mas necessário.
Porque falar sobre abuso não é reviver a dor, é impedir que o silêncio continue fazendo vítimas.
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A manhã entrou pela janela sem pedir licença.
A luz era branca demais pra quem não dormiu. Tudo que ela conseguiu ver foi seu celular e pensar na melhor amiga. Mandou uma mensagem curta, sem emoji, sem explicação.
“Você pode vir aqui hoje? Agora? Por favor!” - o tipo de pedido que não aceita não como resposta.
Quando a amiga chegou, encontrou a casa em meia-luz, as cortinas ainda fechadas apesar da manhã já atravessar a tarde. Ela estava sentada no sofá, ainda de pijama, abraçando uma almofada que não aquecia nada. O cabelo preso de qualquer jeito, o rosto inchado de uma noite que não terminou, o corpo atrasado, como se ainda fosse ontem.
“Eu não sei nem por onde começar.” Disse depois de alguns minutos em silêncio.
"Comece por onde der” respondeu a amiga, sem pressa.
Quase no mesmo horário, a poucos quilômetros dali, ele chegava no bar como quem pisa em território conhecido.
Cumprimentou o garçom pelo nome, puxou a cadeira que sempre sentava. O domingo de sol pedia uma cerveja gelada e histórias fáceis, como a de ontem. Tinha chamado um amigo pra “botar o papo em dia".
“Cara, tu não imagina a noite que eu tive”. O amigo sorriu por educação, puxando outra cadeira. “Mandou bem?” Ele acendeu um cigarro. Tragou fundo. “Conheci uma morena linda, daquelas que te olham e já sabem o que querem, saca?” Falou enquanto soltava a fumaça pela boca e pelo nariz ao mesmo tempo, dando uma golada na cerveja e quase secando o copo americano na sua frente.
No sofá, ela respirou fundo. Precisou organizar o começo, como quem tenta lembrar onde exatamente tudo desandou.
“Eu fui naquela festa… “ disse com uma voz fraca como se estivesse querendo se justificar. “Porque eu queria dançar, eu… eu só queria dançar” E continuou. “Eu tinha passado a semana inteira trabalhando, cansada, eu só queria música alta, luz baixa e ninguém me perguntando nada. Foi quando eu reparei nele me olhando. E.. e eu me interessei também, ele era bonito, muito bonito. Me senti desejada, o que não acontecia há muito tempo. Eu conversei com ele, sim. A gente flertou. Eu aceitei a bebida. Depois outra. E mais uma”.
No bar, ele contava a mesma parte com outro brilho.
“A mina tava na minha, me deu muita bola. Desde a pista. Aceitou todas as bebidas, ficou colada em mim. Tu sabe como é, né?”
“Eu confiei nele” ela disse, quase surpresa com a própria frase. “Eu confiei nele!”
“Ela aceitou beber comigo” ele repetiu como se precisasse reforçar seu ponto. “Ninguém é obrigado a nada.”
Ela apertou as mãos no colo. A voz começou a falhar ali.
“Eu beijei ele. Eu quis beijar. E até ali, tava tudo bem”. Fez uma pausa. “Mas depois… senti que ele me apertava com mais força e tentava tocar em lugares que eu não queria ser tocada. Soltei um “Aqui não” e então ele falou que precisava ir no banheiro e me pediu pra irmos juntos.” Fez outra pausa: “Eu disse que não, mas… mas ele insistiu e quando eu vi já estava indo com ele.”
Ele gargalhou, deu um gole longo.
“A gente já tava se pegando faz tempo. Climinha quente. Aí levei ela pro banheiro. Normal. Ela fez um charme mas acabou indo“.
Ela desviou o olhar da amiga. O chão parecia mais fácil de encarar.
“Ele segurou meu braço. Não foi forte no começo… foi insistente. Eu congelei. Eu lembro de pensar: é só um banheiro, passa rápido". A voz ficou mais baixa “Eu não consegui dizer mais nada.”
No bar, ele falava com naturalidade.
“Ela ficou meio tímida, sabe? Mas isso é joguinho. Mulher faz charme. Mas depois foi.”
Ela engoliu seco.
“Eu não fui. Meu corpo foi. Eu não.” As palavras saiam aos pedaços. “Ele fechou a porta. Eu lembro do barulho da tranca. Lembro de olhar pra parede suja e pensar que aquilo não estava acontecendo comigo. Disse não, pedi pra parar. Mas quem ficou parada fui eu. Eu saí de mim. Não estava mais ali".
Ele batia no ombro do amigo, orgulhoso
"Porra, transar no banheiro da balada é outra coisa. Adrenalina pura".
Ela passou a mão no rosto, como quem tenta apagar uma imagem de um filme que não para de repetir de novo e de novo.
"Quando acabou, eu só queria ir embora. Eu procurei minhas amigas, não achei ninguém. Pedi um carro. Entrei. Cheguei em casa e fiquei sentada no chão do banheiro até agora".
No bar, ele encerrava a história com sorriso seco fedendo a cigarro e cerveja.
“Uma dessas noites que valem a pena, sabe?”
Na casa dela, o silêncio caiu pesado depois da última frase. A amiga não interrompeu. Não tentou consertar. Apenas ficou. Ela concluiu, quase num sussurro:
“Hoje de manhã eu acordei achando que a culpa era minha. E ainda acho. Mas eu sei que não foi. Por que eu me sinto culpada?”
No bar, ele pediu mais uma rodada.
Duas histórias. Uma verdade.
E um abismo inteiro entre elas.
-
No sofá de casa, ela falava devagar, como quem pisa num chão que ainda não sabe se aguenta o peso.
“Desde ontem…” disse olhando pras próprias mãos. "Parece que eu tô assistindo minha vida de fora". A amiga inclinou o corpo pra frente. Não interrompeu. “Eu lembro de tudo, mas é como se não tivesse sido comigo”
No bar, ele já estava na segunda cerveja.
"Mas você está bem?” Perguntou o amigo, meio sem jeito. "Tipo… deu tudo certo mesmo?” Ele deu de ombros. "Claro que deu. Ela foi comigo.”
Na sala ela tentava explicar o inexplicável.
“Eu fico pensando se eu devia ter gritado. Se eu devia ter empurrado. Se eu dei algum sinal errado.” A amiga respondeu imediatamente, tentando impedir que qualquer ideia errada permanecesse ali. “Você disse não. Era tudo o que precisava ter dito. Não tem confusão nenhuma.” Mas ela insistiu. “Eu fui até lá. Eu bebi. Eu beijei.” A amiga interrompeu mais uma vez. "Consentimento não é uma coisa que você perde porque beijou alguém. Isso não existe.”
Incomodado com tudo aquilo, o amigo insistiu.
“Mas você percebeu se ela ficou desconfortável? Ela disse não?” Ele franziu a testa pela primeira vez. "Não, ela não falou nada na hora". Fez uma pausa curta. “Quer dizer… falou, mas era aquele charminho que depois passou e ela se entregou.”
Ela levantou a mão no peito como se estivesse revivendo a cena mais uma vez.
“Meu corpo travou. Eu não conseguia sair. Eu só pensava em acabar logo.” Mais uma vez a amiga foi rápida. “Isso se chama dissociação. É quando a mente tenta te proteger do que o corpo não conseguiu evitar.” Ela engoliu seco. “Então por que eu me sinto culpada?”. A amiga continuou. “Isso é um dos efeitos da dissociação, você se sente culpada por não ter reagido, o que era impossível pois sua mente te colocou em outro lugar pra você não sofrer.” Com aquela explicação, um peso começou a sair das suas costas e ela começou a entender tudo.
Depois de virar mais um copo, ele riu, um sorriso sem graça.
“Hoje em dia tudo é abuso. Daqui a pouco não pode nem beijar.” O amigo não riu junto. "Não é bem assim". Ele desviou o olhar. “Eu não forcei ninguém.” Disse num tom ríspido, batendo com a mão aberta na mesa.
Olhando profundamente no olho dela, a amiga foi direta.
“Você precisa denunciar.” Ela recuou imediatamente. “Não. Eu não sei. Eu não quero passar por isso.” “Eu sei que dá medo”, respondeu a amiga, “Mas ficar sozinha com isso dói mais.” Ela ficou em silêncio. O silêncio de quem já está cansada demais pra decidir. “E se ninguém acreditar?” Ela sussurrou. “Eu acredito!” Respondeu a amiga com voz firme.
Depois do tapa na mesa, o amigo abaixou a voz.
“Você sabe que, se ela falar, pode dar problema, né?” Ele sentiu um incômodo mas não quis se importar. “Ela não vai falar. Essas coisas passam.” Mas algo nele já não estava tão seguro. “E se não passar?” Insistiu o amigo.
Na sala, ela chorava sem lágrimas, já secas depois de horas caindo sem intervalo.
“Eu não consigo dormir. Meu corpo já não é mais um lugar seguro. Me sinto suja.” A amiga se aproximou, colocou seus braços em volta dela com delicadeza. “O que aconteceu não te define. Mas precisa ser nomeado.” Ela fechou os olhos. “Eu só queria que alguém dissesse que não foi minha culpa.” A resposta veio no meio da frase. "Não foi. Nada do que aconteceu é sua culpa!”
No bar, o amigo levantou pra ir embora.
"Cara… pensa nisso com calma.” E saiu sem o abraço e o aperto de mão costumeiros. Ele ficou sozinho por alguns segundos, olhando o copo vazio. Pela primeira vez, a palavra "Não” ecoou dentro dele.
Ela demorou pra responder. Não porque não soubesse o que fazer, mas porque agora tinha certeza.
“Eu vou denunciar!”
Duas conversas. Dois mundos que se tocam.
E no meio, o peso da verdade que os separam.
-
“Eu vou denunciar”
Não foi um grito. Não foi heroico. Foi como se tivesse que atravessar uma ponte com medo, mas atravessou mesmo assim. A amiga não comemorou. Apenas respirou aliviada. Sabia que aquela decisão não encerrava nada. Apenas começava.
Foram juntas.
A delegacia tinha paredes claras demais, luzes fortes demais, cadeiras duras demais para uma história frágil demais. O ar parecia pesado, como se cada relato ali deixasse um rastro invisível. Ela sentou-se com as mãos entrelaçadas, sentindo o próprio corpo tremer em ondas curtas, involuntárias.
Quando começou a falar, a voz falhou. Depois voltou. E falhou de novo. Mas ela contou tudo. Não do jeito que o corpo lembrava, porque o corpo lembrava em pedaços, mas do jeito que conseguia. As palavras saíam com cuidado, como quem pisa em vidro. A amiga ficou do lado. Firme. Sendo presença quando o chão ameaçava ceder.
Assinou papéis. Respondeu perguntas difíceis. Ouviu perguntas que doeram mais do que deveriam. Mas não recuou.
Do outro lado da cidade, ele foi chamado. Primeiro riu, achando que era exagero. Depois se irritou. Depois negou tudo. Disse que foi consensual. Disse que ela se arrependeu. Disse que estava sendo acusado injustamente. Disse o que tantos dizem.
Quando a polícia chegou, a realidade deixou de ser um relato distante ou uma memória de uma noite que não tem mais fim. Houve condução, houve interrogatório, houve registro. Houve prisão. O processo seguiu seu ritmo, lento, burocrático, impessoal demais para uma dor tão íntima. Houve orientações, prazos, audiências, medida protetiva. Ele passou a responder em liberdade, como tantos. Mas agora havia um limite claro: ele não podia se aproximar. Não podia falar. Não podia invadi-la novamente.
Hoje ela faz terapia. Aprendeu que o corpo também fala, e que às vezes ele grita por anos aquilo que a boca não conseguiu dizer. Há dias difíceis. Há gatilhos. Há momentos em que o medo volta sem aviso, como uma sombra antiga.
Mas há também algo novo. Ela dorme melhor. Respira melhor. Aprendeu a nomear o que sente. E, sobretudo, aprendeu algo que ninguém deveria precisar aprender assim, mas que muda tudo: o que aconteceu não a define, a coragem de falar, sim.
Denunciar não a curou, mas a devolveu a si mesma.
E isso, pra quem teve o corpo invadido, já é uma forma profunda de justiça.
Duas histórias. Uma sentença.
E a certeza de que aquilo nunca mais vai acontecer com ela.
Quem escreve?
GUSTAVO FERRAZ
Psicanalista formado pelo Instituto Sedes Sapientiae e fundador da página @todomundotemalgo, que traz conteúdo votado à democratização da psicanálise e do cuidado com a mente. Psicanalista clínico que atua promovendo uma escuta qualificada, empática e diálogos acessíveis sobre saude mental. Acredita que cuidar da mente é um gesto de dignidade, coragem e transformação, e dedica-se a tornar a psicanálise mais humana, inclusiva e presente no cotidiano das pessoas.
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