Estar na Pele do Kenzo
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SEM EU, EU NADA SERIA
Olhar para dentro nunca foi muito intuitivo para mim. Apesar de me sentir no centro de tudo o que observo fora, demorei para me perceber, de fato, do lado de dentro. A vida do lado de fora costuma chamar mais a minha atenção. Externamente a mim, o mundo parece ser mais saliente, mais real, mais vivível. Os cinco sentidos são todos precisamente sintonizados para o que acontece fora. O pôr do sol refletindo no lago do Parque da Aclimação. O grito de gol do São Paulo. A lasanha da tia Nenê. O toque aveludado de um lençol limpinho antes de dormir. O aroma do café Pilão recém-passado atravessando a casa. São todos cúmplices dessa minha afinidade pelo mundo externo.
A própria ciência, do alto de seu pedestal tecnicista, se autointitula “neutra”, terceirizada, despida do eu, como se fossem fantasmas observando a vida microscopicamente. Como se o eu dentro do cientista tivesse que se ausentar momentaneamente. Como se a condição humana fosse um estorvo, uma aberração para uma suposta equação perfeita. Na prática, numericamente negligente, existencialmente descartável. Para mim, é assim o meu eu (na maior parte do tempo): demasiadamente voltado para fora.
Mas a vida acontece, como nos filmes, pautada pelo que uma determinada perspectiva permite enxergar, confinada à uma certa lente interpretativa. A câmera não comporta a totalidade das experiências. “Corta!” Não há espaço para o todo no rolo de filmes. E mesmo que haja algum tipo de seleção, intencional ou não-intencionalmente, do que é possível entrar no meu campo de consciência, se eu não estiver aqui, presente, a vida vai continuar a ser experienciada do lado de fora, despercebida ao experienciador do lado de dentro.
Mesmo que um ser humano, como eu, seja um infinitésimo de um asterisco no contexto cósmico—ainda que passível de vivenciar o que há de mais mundano e mais sublime (e reconhecer o mais sublime no mundano); ainda sujeito a sucumbir diante da tragédia mais profunda e renascer dela; capaz de sorrir, de sentir medo, de abraçar, de buscar sentido, e de refletir—ainda assim, sem eu, eu nada seria.
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Kenzo Sugawara
Curioso pela profundidade da vida. A escrita para mim é um encontro, comigo mesmo e com o outro. Escrevo para me encontrar e devolver algo de bom no mundo. Nessa busca por encontros mais profundos, criei a SOU - um ponto de encontro para nos conhecermos melhor.
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*As opiniões expressas na coluna Estar na Pele não refletem diretamente as posições editoriais do Instituto Bem do Estar, são baseadas nas experiências dos colunistas e suas versões do fato, sendo a ideia da coluna um diário aberto onde autores podem expressar suas experiências de forma genuína se aproximando dos leitores.
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