Estar na Pele da Bruna
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Qual é o valor?
Ontem me perguntaram quanto eu havia pedido de danos morais pelas agressões que sofri. Disseram que eu tinha pedido pouco. E é verdade. Pedi pouco mesmo.
Não quero dinheiro. Quero validação. Quero recuperação.
Mas a pergunta ficou ecoando: qual seria o valor correto? Que quantia faria sentido?
Qual valor devolveria os dias em que eu não fui a mãe que eu queria ser porque estava jogada na cama, deprimida? Qual valor pagaria as noites de sono perdidas pelo medo, pela ansiedade, pela angústia? Qual valor compensaria as horas gastas ruminando tudo, tentando entender o que eu teria feito de tão errado para merecer tanto ódio?
Que valor pagaria as amizades perdidas?
Que valor compensaria o fato de que eu nunca mais serei a mesma?
Que valor me devolveria os dias bons com meu filho que deixei de viver porque simplesmente não tinha forças para sorrir?
Eu não consigo pensar em um número. Porque não existe.
Nenhum dinheiro no mundo paga isso. Nenhum valor compensa.
Porque não se trata de dinheiro.
Trata-se de não deixar que isso aconteça de novo.
Comigo. Com outras mulheres. Com outras pessoas.
E se ele fosse preso? Não resolveria.
Prender alguém como ele não resolve. O que resolveria seria mudar. Mas quem muda uma pessoa assim? Nem eu. Nem você, leitor ou leitora. Nem ninguém sozinho.
Mas, ao mesmo tempo, todos nós juntos podemos mudar o sistema.
Podemos mudar a cultura.
Podemos mudar o futuro.
***
Bruna Ferreira
Advogada de formação, hoje gerente de projetos em tecnologia (onde os prazos são curtos e os cafés longos). Mãe do Luca — especialista em noites mal dormidas e amor incondicional. Sobrevivente de violência doméstica, transformando dor em força e ajudando outras mulheres a fazerem o mesmo. Sempre em busca de evolução (e umas horinhas de sono também).
Na nova página do Estar na Pele da Bruna, a pergunta não é sobre dinheiro. É sobre tudo aquilo que não se mede. E sobre o que realmente precisa mudar para que histórias assim não se repitam.